Miguel Frasquilho garantiu, na comissão de inquérito ao colapso do BES/GES, que a chefia de um departamento do banco não colidiu com as suas funções como deputado.

O agora presidente da AICEP ouviu poucas perguntas dos deputados, alegando nunca ter tido funções «centrais» ou «executivas» no banco, mas teve de assegurar que a sua função como parlamentar não foi influenciada pelo seu cargo no BES.
 

«Isso vai da consciência de cada um e da forma como as pessoas agem. Sempre separei muito bem as duas atividades, mas sou um economista, é natural que os mesmos assuntos fossem abordados pela mesma pessoa. Mas sempre prezei muito a minha integridade e o pensar pela minha cabeça».


Miguel Tiago, do PCP, acabou por lembrar Frasquilho que fez parte da comissão de acompanhamento das medidas da troika no Parlamento enquanto trabalhava no BES.
 

«Como é que um deputado está em reuniões à porta fechada e é coordenador do departamento de um banco sobre o qual se falava naquelas reuniões?».


O ex-deputado do PSD negou o conflito de interesses. «Não me lembro de ter ouvido falar especificamente do BES nas reuniões de acompanhamento da troika», recordou.

Além disso, o ex-diretor do Espírito Santo Research sublinhou que as reuniões «não eram secretas», nem sequer «executivas», havendo até conferências de imprensa.
 

«Nunca tive acesso a qualquer informação privilegiada e não discutia essas reuniões no BES».


O deputado comunista quis saber então como é que Miguel Frasquilho tinha tempo para dirigir um departamento no BES enquanto era deputado.

«Dei primazia aos trabalhos parlamentares. Estava no banco quando não tinha que estar no Parlamento. Não tinha noites nem fins de semana. E tinha uma excelente equipa em que confiava», respondeu o ex-deputado do PSD.

Frasquilho notou então que, quando estava no Parlamento, tentou «não omitir opiniões sobre o setor financeiro» e votou «sempre alinhadamente com a bancada do PSD».
 

«Houve matérias que votei que não eram simpáticas para o setor financeiro (…) Sempre que ouvia a palavra setor financeiro, não vou dizer que fugia como o diabo da cruz…»


Dentro do BES, o atual presidente da AICEP garantiu não ter tido «parte ativa em nenhuma reunião do conselho de administração ou da comissão executiva».

«Estive presente em várias, quando fazia apresentações de como estava a economia aos administradores e ao presidente [Ricardo Salgado]. Passada essa intervenção, eu saía», contou Frasquilho.

Daí não ter tido conhecimento dos problemas do GES mais cedo do que foi veiculado na imprensa, em dezembro de 2013.
 

«Nunca tive nenhuma conversa sobre esse tema até essa altura e tudo o que fui sabendo foi o que foi sendo público. Eu sabia só aquilo que tinha de saber dentro do que fazia no banco».


Sobre se essas notícias lhe despertaram a curiosidade para tentar saber mais sobre os problemas no GES, Miguel Frasquilho garantiu que não.
 

«As notícias que iam saindo nunca envolveram a minha entidade patronal que era o BES. Não tinha nenhuma necessidade de saber, nem queria saber o que se passava no GES».


Já quando foi questionado pela deputada do Bloco de Esquerda, Mariana Mortágua, Miguel Frasquilho negou ter tido qualquer conversa com um membro do Governo sobre o BES.

«Não. Fazia parte do meu ring-fencing [perímetro de proteção]», respondeu, aludindo à denominação do conjunto de medidas que o Banco de Portugal tentou impor ao BES para garantir a sua independência do ramo não-financeiro do GES.

O ex-deputado do PSD assegurou que «não tinha noção» do organograma do Grupo Espírito Santo e que tinha uma «relação bastante cordial e muito profissional» tanto com Ricardo Salgado, como com Amílcar Morais Pires, a quem reportava nos anos finais do banco.
 

«De negócios não falava com eles. Só da análise económica, das tendências da economia portuguesa, mas também das tendências globais».


O deputado do PSD Duarte Pacheco questionou então Frasquilho sobre a aproximação entre o BES e o poder político. «Se isso aconteceu, posso assegurar que nunca foi por mim», respondeu.

São votados esta tarde no Parlamento projetos sobre o regime de exclusividade dos deputados, uma questão que toca precisamente em Miguel Frasquilho, já que trabalhava no BES e no Parlamento ao mesmo tempo.
 

«Não é nada prejudicial, muito pelo contrário, que existam deputados que estejam em regime exclusividade e outros não».


«Os conflitos de interesses», na opinião do militante do PSD, vão da «consciência de cada um».

Miguel Frasquilho iniciou funções no BES em 1996, «a convite de Manuel Pinho». Montou o departamento de research no banco, um departamento «de análise» e de «apoio à atividade central do BES».

Em 1997, tornou-se diretor-coordernador deste departamento. Suspendeu funções quando foi secretário de Estado do Governo de Durão Barroso e regressou ao BES em 2003, quando também se tornou deputado.