A Suíça comprou 25% do petróleo vendido pelos dez maiores produtores africanos entre 2011 e 2013, no valor de mais de 55 mil milhões de dólares, segundo Instituto de Governação dos Recursos Naturais, uma ONG da Suíça.

De acordo com esta investigação que foi esta semana divulgada, e que tem como título 'Big Spenders – Swiss trading companies, African oil and the risks of opacity' (Grandes gastadores – os intermediários suíços, o petróleo africano e os riscos da opacidade), os dez maiores produtores de petróleo em África venderam mais de 500 milhões de barris a intermediários e entidades financeiras com sede na Suíça, um país onde a regulação destas atividades é, nas palavras do chefe do departamento de regulação da KPMG em Genebra, «muito simples: não há regulação nem supervisão».

As transações em petróleo feitas por estas entidades financeiras foram investigadas por esta ONG, que se baseou em 1.500 registos de transações, notícias da imprensa, relatórios de analistas e várias entrevistas, para concluir que estas empresas suíças, como a Glencore, Trafigura e a Vitol, têm receitas que ultrapassam os 100 mil milhões de dólares, colocando-as no patamar da Apple ou da Chevron.

«Os montantes pagos pelos intermediários suíços aos dez governos africanos representam 12% das receitas orçamentais, e são o dobro do que estes países receberam em termos de ajuda externa», sublinha o relatório, que dá conta de que estes traders suíços são o maior cliente de petróleo de países como a Guiné Equatorial, os Camarões, o Chade, o Gabão e a Nigéria, escreve a Lusa.

Na Guiné Equatorial, por exemplo, as vendas a intermediários na Suíça valeram 2,2 mil milhões de dólares em 2012, o equivalente a 36% de todas as receitas previstas no Orçamento do país, e na Nigéria as compras chegaram aos 37 mil milhões em três anos, representando 18% da receita do Executivo, segundo o relatório de 27 páginas.

«Pagamentos a esta escala que afetam as perspetivas de desenvolvimento dos países pobres precisam de ter uma supervisão pública, que tem, de forma geral, sido inexistente na maioria dos cenários descritos neste relatório. A transparência dá aos cidadãos uma arma para responsabilizarem os seus governos pela gestão do bem mais valiosos do país», argumenta o texto desta ONG suíça.

No relatório divulgado, os três investigadores desta organização não governamental dão conta das «relações obscuras» que existem no mundo do petróleo nos países da África subsariana e revelam que as vendas de petróleo, entre 2011 e 2013, representam mais de 250 mil milhões de dólares, o equivalente a uma média de 56% das receitas dos dez maiores produtores de petróleo nesta região (Angola, Camarões, Chade, Costa do Marfim, república do Congo, Guiné Equatorial, Gabão, Gana, Nigéria e Sudão do Sul).