O excedente de produção de petróleo está a fazer o preço da matéria-prima descer para o nível mais baixo dos últimos quatro anos e a colocar em perigo os orçamentos dos maiores produtores mundiais.

A tendência de descida do preço do petróleo já se notava desde junho, quando cada barril chegou a ser transacionado acima de 115 dólares, mas os alarmes soaram quando o valor de referência desceu para quase 80 dólares, colocando em perigo orçamentos de países como a Rússia, a Venezuela, a Guiné Equatorial ou Angola.

«Vocês sabem que os preços da energia caíram, assim como alguns dos nossos produtos tradicionais, por isso, devíamos antes reconsiderar o orçamento e reduzir a despesa», disse o Presidente da Rússia esta semana, citado pela Bloomberg, quando um grupo de ativistas de direitos humanos pediu um aumento do financiamento, sinalizando que a preocupação já passou dos economistas para os políticos, nota a Lusa.

Outro exemplo dos impactos da descida do preço do petróleo e do impacto nas receitas vem de Angola. Esta semana, o Presidente José Eduardo dos Santos anunciou, em pleno Assembleia Nacional, que ia adiar a construção de 63 mil salas de aula: «Diante da atual situação económica e financeira difícil e incerta, causada pela queda do preço do petróleo, infelizmente o referido plano já não poderá ser executado em três anos, como nós pretendíamos, mas talvez possa ser executado num período de cinco a dez anos», disse o chefe de Estado de Angola.

Ao contrário de outras situações em que a produção supera as necessidades, desta vez alguns dos maiores produtores, como a Arábia Saudita, resolveram baixar os preços em vez de reduzir a produção, numa luta explícita pelo aumento da quota de mercado, principalmente na Ásia, e num contexto de mudança de paradigma no setor petrolífero.

Os Estados Unidos aumentaram a sua produção por via do petróleo de xisto, chegando praticamente ao nível da Arábia Saudita, o maior produtor mundial, e por causa disso reduziram as importações, nomeadamente de África, fazendo os produtores locais nomeadamente Angola e Nigéria, 'virarem-se' para a Ásia.

Só que também na Ásia, como na Europa, a procura está a abrandar, ao contrário da produção, que continua a subir, e por isso as notícias sobre descontos 'por baixo da mesa' sucedem-se na imprensa financeira internacional, que dá conta de uma guerra mais ou menos explícita pelo aumento da quota de mercado dos maiores produtores mundiais.

Nesta semana, no relatório mensal, a Agência Internacional de Energia confirmou a tendência do mercado e previu que o aumento da procura de petróleo para o total deste ano diminua 250 mil barris por dia para 650 mil barris, o que revela o menor aumento na procura desde 2009.