O Ministério Público pediu o julgamento de Peter Boone, um arguido de nacionalidade canadiana residente em Londres, que manipulou títulos da dívida portuguesa e obteve ganhos de mais de 800.000 euros, indica hoje a Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa (PGDL).

Segundo a PGDL, o arguido é acusado do crime de manipulação de mercado tendo por objeto a desvalorização das obrigações do tesouro portuguesas.

O artigo em causa foi publicado no dia 15 de abril de 2010 no blogue Economix, do jornal New York Times e pode vê-lo aqui.

Sublinhando que se trata de uma acusação “por crime com contornos inéditos”, a PGDL adianta que, em abril de 2010, o homem era administrador de uma sociedade que prestava serviços de consultoria de investimento e de gestão de carteiras sobre investimentos financeiros a uma outra sociedade gestora de fundos de investimento especulativo.

De acordo com a prova recolhida, o arguido tinha interesse na desvalorização da dívida portuguesa e na subida dos yields (margem de lucro), uma vez que só a respetiva desvalorização permitia recuperar a dívida com mais-valias e potenciar os seus ganhos, tendo, com esta finalidade, publicado, entre fevereiro e abril de 2010, vários artigos em blogs, sendo um deles associado a um jornal de referência mundial.

A PGDL acrescenta que “os artigos de opinião tiveram impacto nas yields da dívida pública portuguesa, influenciaram os investidores, até porque o arguido era um académico prestigiado, doutorado em economia pela universidade de Harvard e os artigos foram publicados em contexto de grande instabilidade financeira, de receio de contágio com a dívida grega, estando os mercados em situação de elevada suscetibilidade”.

Segundo a PGDL, o arguido nunca mencionou nos artigos editados os seus interesses negociais, o que teria “reduzido a credibilidade da opinião divulgada”, tendo obtido, na negociação da dívida soberana portuguesa, ganhos de 819.099 euros através da desvalorização dos títulos de tesouro respetivos.

Desta forma, realça aquela estrutura do MP, o arguido “atentou contra as regras da livre concorrência e a confiança do mercado”.