Mais de 80 milhões de ações do BES foram transacionadas só nos últimos 42 minutos de negociações, mais do dobro da média diária, antes de a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários ter suspendido a sua comercialização, na sexta-feira.

A Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) suspendeu as ações do Banco Espírito Santo (BES) às 15:42 de sexta-feira, que foi o dia em que o BCE suspendeu o acesso do banco às operações de política monetária.

Só entre as 15:00 e a hora da decisão foram transacionadas 83.030.421 ações do banco, de acordo com informações prestadas à Lusa pela Euronext, um valor que está muito acima da média diária de ações transacionadas do BES, que é de 37.744.251 ações, segundo a Infobolsa.

Os dias que antecederam a decisão do regulador do mercado foram de grande volatilidade para as transações do banco fundado pela família Espírito Santo, tendo sido transacionados mais de 671 milhões de ações só na quinta e na sexta-feira.

Na quinta-feira, o dia que se seguiu à apresentação dos prejuízos históricos de mais de 3,6 mil milhões de euros só na primeira metade do ano, foram compradas e vendidas mais de 419 milhões de ações do BES.

Nesse dia, os títulos do BES só começaram a ser negociados já depois das 10:00 da manhã e a primeira hora de trocas foi intensa: os investidores transacionaram mais de 145 milhões de ações do banco.

Já na sexta-feira, entre a abertura da sessão e o momento em que foi suspensa a negociação dos títulos do BES, foram transacionados mais de 251 milhões de ações do banco, tendo o pico sido registado precisamente mais perto da suspensão.

A agitação dos títulos do BES nestes dias não se limitou a um volume de trocas elevado: na quinta-feira, os títulos perderam mais de metade do valor e, na sexta-feira, antes de a CMVM suspender a negociação das ações, o banco recuava 40,3%. Nessa altura, cada ação valia 12 cêntimos.

Mas a história das últimas horas do BES no PSI20, o principal índice da bolsa de Lisboa, começa a contar-se no dia em que o banco anunciou os prejuízos semestrais mais elevados de sempre na história da banca em Portugal: na noite de quarta-feira, a 30 de julho, a instituição revelava resultados líquidos negativos de quase 3,6 mil milhões de euros em seis meses e desvendava uma série de problemas e irregularidades financeiras no grupo.

Na altura, ainda não se sabia que, dois dias depois, seria decretado o último dia do BES no PSI20, mas 15:42 de sexta-feira viriam a ser a hora derradeira dos títulos do banco.

Isto porque, no primeiro fim de semana de agosto, o Banco de Portugal tomou o controlo do BES e determinou a sua extinção. O BES é agora o nome do «bad bank», o veículo em liquidação que inclui os ativos e passivos tóxicos do banco. A parte considerada não problemática foi segregada e concentrada numa instituição diferente e transitória, o Novo Banco, liderado por Vítor Bento.

A solução do Banco de Portugal, que foi anunciada já na noite de domingo, inclui a perda de licença bancária do BES, que deixa assim de ser banco, e a injeção de capital no Novo Banco, através do Fundo de Resolução bancária.

A proposta do Banco de Portugal era que os bancos entrassem com 500 milhões de euros no fundo (aos 367 milhões já existentes, somar-se-ia uma contribuição adicional de 133 milhões), vindo os restantes 4,4 mil milhões de euros do dinheiro da troika reservado ao setor financeiro e que ainda está nos cofres do Estado.

A banca apresentou uma contraproposta: financiar o fundo com mais 635 milhões de euros, além dos 367 milhões de que o Fundo de Resolução já dispõe, o que reduziria a participação do Estado no fundo aos 3,9 mil milhões de euros. Falta agora saber qual o acordo final entre o regulador e supervisor e os bancos.