A manutenção do atual Governo, anunciada no domingo pelo Presidente da República, melhorou o desempenho dos mercados, mas não restabeleceu por completo a confiança dos investidores, disseram à Lusa analistas.

Juros da dívida de Portugal a descer em todos os prazos

Apesar de a Bolsa portuguesa estar em alta e de os juros da dívida estarem em queda, os dois analistas questionados dizem que o regresso ao ponto anterior à crise política será lento.

«A perda de confiança é algo que não se consegue recuperar de um dia para o outro», explicou o presidente da corretora DIF-Broker, Pedro Lino.

Na abertura, a Bolsa de Lisboa estava em «ligeira alta», mas os valores mostram que os investidores «continuam receosos, até porque ainda não se sabe como vai ser a remodelação do Governo, quem são as pessoas que vão ficar as novas pastas e isso gera alguma incerteza, pelo menos no curto prazo».

Também o economista da Informação em Mercados Financeiros (IMF) Filipe Garcia considera que Portugal mantém um problema de confiança junto dos investidores.

«Estas questões da confiança perdem-se num instante e depois demoram muito tempo a serem reconstruídas», afirmou, referindo que não se pode esperar uma recuperação muito rápida das obrigações.

Ainda assim, considerou, «o caminho será para um progressivo ajustamento».

«Neste momento, os [juros a] dois anos já estão na casa dos 5,4% - bem abaixo dos 7% que chegámos a ver na semana passada -, mas ainda muito altos para se dizer que Portugal terá acesso aos mercados para emissões de médio/longo prazo nos próximos tempos», acrescentou Filipe Garcia.

Para Pedro Lino, será natural que as taxas de juro do mercado secundário «baixem substancialmente, à medida que o Governo dá sinais de estabilidade e o sistema político volta à normalidade».

Com isso, adiantou, Portugal voltará a aproximar-se das taxas praticadas na Irlanda «contra o cenário dos últimos dias, que era uma aproximação à Grécia».

No entanto, reconheceu o analista, essa aproximação à Irlanda «vai demorar meses» porque os investidores querem perceber «quão sólida é esta nova coligação».

O mais difícil, explicou o administrador da IMF, será a descida das taxas no prazo mais curto, a dois anos.

«Nos 10 anos, começámos o ano entre os 6 e os 6,5%. E assim estivemos até ao meio de abril. No meio de abril as taxas baixaram e ficámos entre os 5,3 e os 6%, altura em que Portugal chegou a emitir a 10 anos», lembrou Filipe Garcia, acrescentando que «a crise política pôs os yields [retorno oferecido por um investimento, termo muito usado no mercado obrigacionista] nos 7,5 a 8%» e que, neste momento, «está outra vez nos 6,5%, portanto relativamente perto do ponto de partida».

No prazo dos dois anos, no entanto, a taxa estava entre os 3% e os 4% desde o início do ano, mas «a crise política fez saltar para a zona dos 4% e depois, aquando da demissão de Paulo Portas, para os 5,5%, chegando mesmo aos 7,5%».

Neste prazo «ainda não estamos perto dos valores de referência».

Apesar de ser lenta a recuperação, os analistas admitem que a solução apresentada por Aníbal Cavaco Silva acalmou os mercados.

«Parece-me que este era o desfecho que mais agradava ao mercado, uma vez que assegura a manutenção de um Governo num futuro previsível (...) e afasta o espetro das eleições antecipadas», concluiu.

Também o BNP Paribas acredita que a decisão de Cavaco apenas adia o problema. O banco diz que a coligação enfrentará renovadas tensões políticas por altura do Orçamento do Estado para 2014.