Maria Luís Albuquerque foi ontem ouvida, à porta fechada, na subcomissão de ética e saiu sem prestar declarações. Aos deputados,  disse que não detém nenhuma informação privilegiada que possa  beneficiar a empresa inglesa Arrow Global, onde vai trabalhar como administradora não executiva. À noite, em entrevista à RTP, a ex-ministra das Finanças afirmou que só conheceu o grupo no momento em que foi contactada e reafirma que o Estado português não fez negócios, nem concedeu benefícios fiscais às empresas em causa.

"Não tive qualquer contacto. Desconhecia até a existência desta empresa. Nunca tinha nenhum contacto nem como secretária de Estado nem como ministra. [A Arrow Global] nunca teve negócios com o Estado português"

“O que a legislação diz, em matéria de incompatibilidades, é que não pode ter havido a conceção de benefícios fiscais de natureza contratual”, disse ainda, assinalando “é fundamental explicitar que a questão que se coloca nos termos da lei é que não pode ter havido benefícios fiscais contratualizados, ou seja, que tenham sido objeto de uma decisão particular”.

A ex-governante e deputada do PSD garante que a informação de que dispõe "não é de todo privilegiada" e que durante o desempenho das suas novas funções não terá "qualquer contacto com clientes" nem em Portugal, nem no estrangeiro.  A sua função será “fazer o controlo e o escrutínio da atuação da comissão executiva e também participar nas discussões estratégias”.

"Houve populismo e má fé"

Maria Luís não encontra razões para deixar de ser deputada. Entende até que poderá melhorar a sua qualidade enquanto política.

“Não há exclusividade dentro de um conjunto de regras que devem ser respeitadas. Se eu vou aprender mais e valorizar-me, de que forma é que isso pode prejudicar a minha atuação enquanto política? Quanto mais eu souber, mais conhecimentos eu tiver, melhor será a minha qualidade enquanto política”.

E entende que existe ainda outra “vantagem”: “A minha situação é de facto escrutinada. A minha situação é conhecida. Revelei a remuneração que vou ter. Esse escrutínio é útil e positivo”.

Sobre eventuais questões éticas que se possam levantar por ir exercer estas funções num grupo de empresas poucos meses após deixar as funções governativas, defende que “a ética não é uma questão de tempo”.

“Se em algum momento eu tivesse, por algum ato enquanto governante, dado a esta empresa algum tipo de tratamento privilegiado ou algum tipo de benefício, eu não iria trabalhar para esta empresa agora, nem daqui a três, cinco ou seis anos. A ética não é uma questão de tempo é uma questão de comportamento constante”, afirmou.

“A maneira como a discussão foi posta na praça pública veio inquinada desde o princípio. Muitas das pessoas que falaram, fizeram-no com ignorância, populismo e má fé. As pessoas que nos ouvem não têm, nem têm de ter, esses conhecimentos. Mas quando falamos de responsáveis políticos e comentadores, já não é admissível que os comentários sejam feitos com base na ignorância ou populismo”.

E acusou: “Quando se fala que eu tenho algum tipo de informação privilegiada útil à empresa, isso é ignorância”.