A demissão de Vítor Gaspar não surpreendeu os economistas contactados pela Lusa, uma vez que, argumentam, o ministro das Finanças tinha já perdido a credibilidade ao não cumprir os objetivos com que se comprometeu.

Mas vão mais longe e consideram a escolha de Maria Luís Albuquerque para o substituir uma «solução fraca» que não deixa antever grande mudança nas políticas do Governo.

O professor universitário Abel Fernandes considerou, em declarações à agência Lusa, que a saída de Vítor Gaspar do Governo «era um passo que era urgente que fosse dado», uma vez que «protagonizou um conjunto de medidas altamente severas que, contrariamente às expectativas alimentadas pelo Governo, não surtiram os efeitos desejados».

Por isso, defendeu o economista da Universidade do Porto, «a credibilidade do ministro das Finanças foi severamente afetada, não apenas pelos resultados da sétima avaliação, mas pela descrença da troika quanto à capacidade de o Governo implementar a reforma do Estado».

Também Jorge Landeiro Vaz, professor do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) , defendeu que Vítor Gaspar «fez bem em demitir-se porque não conseguiu atingir os objetivos que se foi propondo, não equilibrou as contas públicas e deixou o país numa situação de pressão económica grave».

O economista do ISEG considera que era «uma demissão esperada», uma vez que Gaspar «tem sido o para-raios das críticas ao Governo», cuja capacidade para cumprir o Programa de Assistência Económica e Financeira (PAEF) foi questionada pelos próprios credores internacionais.

José Maria Castro Caldas, por seu lado, destacou à Lusa que houve, na última semana, «uma série de indícios que apontavam para um esgotamento do ministro das Finanças», nomeadamente a «mensagem de desagrado da troika relativamente à capacidade do Governo e a tomada de posição «muito forte» das confederações patronais.

O economista da Universidade de Coimbra afirmou que a demissão de Gaspar «não cria confiança em parte alguma» e lamentou que se trate apenas de uma remodelação, defendendo que o país «estava a precisar de uma mudança mais generalizada».

Bagão elogia subida de Portas a «número 2» do Governo

A demissão do ministro de Estado e das Finanças «tem um significado mais profundo» do que «qualquer outro ministro setorial» para Bagão Félix, que elogiou a ascensão de Paulo Portas a «número dois».

«A demissão deste ministro das Finanças envolve um contexto diferente do que qualquer outro ministro setorial. Fazia a ligação com os nossos credores. O seu prestígio e capacidade, ao nível internacional, eram muito acentuados. Houve uma série de coisas que fez mal, obstinadamente... Esta demissão tem um significado mais profundo», disse à Lusa o responsável pelas Finanças do Governo de Santana Lopes, também em coligação PSD/CDS-PP.

O democrata-cristão considerou que a subida de Paulo Portas a número dois do Governo, «deveria ter acontecido desde o primeiro dia» e que, «já que era para haver uma remodelação, o ideal era que envolvesse mais pessoas e até a estrutura do Governo».

«Não faz sentido que o número dois do Governo não seja o líder do partido da coligação, embora o partido menor. Mais vale tarde do que nunca», disse, considerando essa alteração orgânica «corretíssima».

Em virtude de Portugal estar na «antevéspera de mais um exame da troika e numa fase final de formação das linhas essenciais e até já de alguns detalhes do Orçamento do Estado para 2014», Bagão Félix resumiu que esta demissão de Vítor Gaspar foi um acontecimento «surpreendente, sobretudo no tempo».