Manuel Fernando Espírito Santo, que foi vice-presidente da ES Resources até 2005 e presidiu à sociedade Rio Forte, admitiu, esta terça-feira, que assinou de cruz «muitos documentos» do Grupo Espírito Santo. Na comissão de inquérito ao BES/GES, indicou que Ricardo Salgado «sempre» mereceu «confiança» e colocou-se ao lado do ex-presidente do BES no atirar de responsabilidades para o contabilista que está no olho do furacão de toda a história. 

«Assinei muitos documentos à base da confiança»


O ex-administrador do GES respondia a Tereja Anjinho (CDS-PP), já na segunda ronda de perguntas, com a deputada a questioná-lo sobre se «alguma vez» tinha «assinado de cruz» algum documento ou ata, sem uma «leitura atenta».

Antes, na primeira ronda, embora reconhecendo as «críticas relevantes a Ricardo Salgado desde setembro de 2013», defendeu o ex-presidente do BES, ao dizer que quando Salgado se apercebeu dos problemas nas contas da ESI, «logo apresentou soluções e problemas».

«O conselho superior confiou nele».«Mereceu sempre confiança (...) sempre fora capaz de superar todas as dificuldades que foram surgindo».

«Sempre nos foi dito que não era necessário, pelo próprio comissaire aux comptes, que não era preciso consolidar as contas da ESI», a Espírito Santo Internacional.


O comissaire aux comptes é o contabilista Machado da Cruz, a quem Ricardo Salgado também apontou a responsabilidade pela ocultação de contas na ESI.  Respondendo a Teresa Anjinho (CDS-PP), admitiu que tinha estima por Machado da Cruz, mas a partir de março de 2014, tudo mudou: «Francamente, o Dr. Machado da Cruz é uma pessoa que eu conheço e que tinha muita informação. E um dos problemas que tivemos sobre papel da ESI, - quando foi decidido criar pequena comissão executiva em março de 2014, quando fizemos o pedido de gestão controlada -, foi tivemos de trabalhar durante três meses com os peritos do Luxemburgo», começou por indicar, aludindo depois ao alegado bloqueio que o contabilista terá feito no acesso às contas. 

«Tivemos muita dificuldade em obter informação. Houve um historial que foi perdido» (...) «Ele tratava das contas, por isso ele sabia de muita coisa»


Manuel Fernando, embora tenha sido um dos administradores, fez questão de frisar que era um entre muitos outros, sendo mais um elemento de topo da hierarquia Espírito Santo a descartar responsabilidades:

«Na ESI eu era um entre 16 administrações». Tinha «noção de que o problema de endividamento da ESI «se vinha avolumando dede 2008», mas não que  «tal endividamento fosse tão elevado, quando no final de 2013 veio a revelar-se» assim. «Nunca tive qualquer informação até ao início de 2014 que as contas da ESI não refletissem a realidade da empresa. Acreditei na reestruturação».


Só no final de 2013, com o exercício do Etricc II - um exercício exigido pelo Banco de Portugal que visava assegurar uma adequada cobertura de riscos - teve noção do problema maior. Antes disso, não, garantiu aos deputados.

«Face à tomada de consciência do sobreendividamento, finais de 2013» foi decidida a reestruturação de todo o grupo, com um plano de reestruturação, «onde a Rio Forte passa a cabeça do grupo», estando previsto um aumento de capital de 700 milhões a 1 bilião de euros e a «alienação da totalidade dos ativos ate 2016, de forma a assegurar desalavancagem do grupo», continuou. E, em relação a isto, assegurou, o supervisor da banca estava a par:

«Tanto quanto me foi dito, processo estava a ser acompanhado pelo BdP».


De resto, Manuel Fernando destacou que pensava  que Rio Forte podia ser a solução para o problema e não o contrário:

«Acreditei que a Rio Forte era a solução para salvar o grupo. Tinha as contas auditavas, em termos de governance tinha tudo o que era necessário e o plano de reestruturação previa o aumento de capital (...). Acreditámos seriamente no aumento de capital»


Embora presidisse à Rio Forte, disse que a dívida não era da sua «competência». Classificou-a como «matéria financeira».

A noção do elevado endividamento do grupo, como um todo, já vinha de muito antes, admitiu, mas a crise financeira internacional foi apontada pelo ex-administrador do GES como um fator de agravamento.  « Infelizmente, fomos apanhados na crise de 2008 e isso dificultou-nos bastante a venda de ativos, mas havia uma estratégia muito clara desde 2006, para vender ativos não financeiros». 

OS PRINCIPAIS TÓPICOS DA INTERVENÇÃO DE MANUEL FERNANDO ESPÍRITO SANTO