A audição do ex-contabilista do Grupo Espírito Santo foi à porta fechada, a seu pedido, por causa dos processos de natureza criminal em que é arguido, mas algumas das suas revelações chegaram aos órgãos de comunicação social.

Ao que a TVI conseguiu apurar, Machado da Cruz confirmou aos deputados ocultação do passivo da Espírito Santo Internacional, pelo menos desde 2008. E disse que a ideia foi de Ricardo Salgado. Uma versão diametralmente oposta daquela contada pelo ex-presidente do BES que, aos deputados, garantiu que nunca deu instruções nesse sentido e culpou precisamente o contabilista por tudo

O resumo da audição em 7 pontos:

1 - Reconheceu que, de facto, era o responsável pela contabilidade da ESI e confirmou que, entre 2008 e 2012, houve uma acumulação de passivo na ordem dos 1,3 mil milhões de euros. Foi isso que precipitou a derrocada do GES e do BES

2 - Denunciou que quem teve a ideia da ocultação terá sido, logo desde o início, Ricardo Salgado, e que, portanto, o ex-presidente do BES sabia de tudo

3 - GES decidiu esconder contas porque foi afetado pela crise do sub-prime, a partir de 2008. Tinha obrigações a longo prazo nessa altura. O grupo estaria a registar perdas significativas

4 - Disse que acatou ordens de Salgado, porque ex-líder do grupo terá expressado  a sua confiança em que tudo se iria resolver

5 - Apesar da maquilhagem das contas, assegurou ninguém roubou um euro que fosse do passivo de 1,3 mil milhões. E que a bola de neve continuou, mas não terá sido por falta dos seus avisos de que seria preciso parar.  Terá chamado a atenção a Ricardo Salgado, a José Manuel Espírito Santo e ao controller financeiro José Castella

6 - Mostrou-se «muito arrependido», mas fez tudo não a pensar nele próprio, mas no grupo. Por «lealdade e obediência»

7 - Pediu a demissão, por carta, ao conselho superior do GES, a 7 de janeiro de 2014 (meio ano antes do colapso), por estar a alegar um «erro» nas contas, que os auditores não aceitavam «existir sem responsáveis».  Por isso, viu-se «forçado» a assumir tudo «pessoalmente. Aos deputados, garantiu que queria ter dito a verdade aos advogados do Luxemburgo, mas Salgado terá exigido que fosse com a versão do «erro» até ao fim

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