O presidente do britânico Lloyds Bank, António Horta Osório, considerou esta quinta-feira que o crédito malparado é o principal problema dos bancos portugueses e que é necessário resolvê-lo para libertar capital e financiar a economia.

Num almoço-debate na Câmara de Comércio, em Lisboa, o gestor considerou que "os problemas que o setor financeiro tinha há três anos em termos de solvência melhoraram muito" e recordou os recentes aumentos de capital da Caixa Geral de Depósitos e do BCP e a compra do BPI pelo espanhol CaixaBank, que ajudaram a aumentar a solvabilidade da banca portuguesa.

Contudo, acrescentou, "falta resolver outro problema", o do crédito malparado e em risco, recordando que os ‘non-performing loans’ (termo em inglês usado na gíria do setor) face ao crédito total estão, em Portugal, acima da média europeia.

Para Horta Osório, os ativos de crédito malparado "deviam ser vendidos a quem pode tomar conta deles", para os bancos poderem libertar, reciclar capital para "emprestarem a quem precisa".

O presidente do grupo bancário inglês Lloyds Bank destacou que o problema é ainda mais necessário de resolver quando o malparado representa a "quase totalidade dos capitais próprios" dos bancos.

O elevado nível de crédito malparado nos bancos em Portugal tem dominado as preocupações sobre o setor, até porque diminui a capacidade de a banca emprestar dinheiro à economia, sendo frequentemente referido pelas agências de ‘rating’ como uma das causas para a baixa notação atribuída a Portugal.

A necessidade de criação de um ‘veículo’ para retirar crédito malparado e em risco do balanço dos bancos há já alguns anos, tem sido muito falada.

No início do mês, o primeiro-ministro, António Costa, afirmou no Parlamento que houve uma reunião entre o Ministério das Finanças, o Banco de Portugal (BdP) e os três maiores bancos que visa preparar uma solução para o crédito malparado.

Da parte dos bancos, vários presidentes de instituições têm afirmado que um veículo especificamente para o malparado não é necessário, mas caso seja criado irão avaliar se vale a pena recorrer a ele.

Dívida pública

António Horta Osório defendeu ainda que Portugal precisa de um plano a médio prazo que envolva toda a sociedade para diminuir o elevado nível de dívida pública, sob pena de alguma turbulência colocar logo o país "em sobressalto".

Deveríamos ter um plano a médio prazo na sociedade para diminuir o nível da dívida face ao produto [interno bruto], ou qualquer sobressalto ou problema externo pode voltar a pôr-nos numa situação muito difícil, que obviamente os portugueses não querem voltar a passar", disse o presidente do banco britânico.

António Horta Osório citou o caso da Irlanda para considerar que este demonstra que tal é possível "desde que haja vontade da sociedade e políticas adequadas para o fazer".

Segundo os últimos dados disponíveis, a dívida pública representava em março 130,6% do Produto Interno Bruto (PIB), ligeiramente acima dos 130,4% de dezembro de 2016.

Sobre a evolução da economia portuguesa nos últimos anos, destacou o equilíbrio das contas externas e a recuperação do emprego como elementos positivos, mas considerou que a estagnação da produtividade coloca problemas quanto a aumentar no futuro a riqueza de cada cidadão, o PIB ‘per capita'.

A única maneira de ter melhores salários por hora é com produtividade", afirmou.

António Horta Osório defendeu ainda que o Governo deveria promover uma "política de imigração inteligente", tal como há em Singapura ou na Austrália, capaz de atrair pessoas qualificadas que ajudem a colmatar o problema de envelhecimento do país.

É que, disse, atualmente há um reformado para três pessoas no ativo, mas em 30 anos será um reformado para cada dois.

Horta Osório é líder do Lloyds Banking Group, banco que foi resgatado pelo Tesouro britânico em 2009, quando o Estado inglês ficou com uma participação de mais de 40% no banco.

O Tesouro britânico anunciou em abril deste ano que já recuperou o total do investimento feito no banco, de 20,3 mil milhões de libras (cerca de 24,4 mil milhões de euros).