As autoridades que procuram uma solução para os lesados do papel comercial do GES voltam a reunir-se na terça-feira e querem chegar a acordo até abril, podendo o BES ser chamado a participar na compensação a estes clientes.

Segundo informações recolhidas pela Lusa junto de fontes ligadas ao processo, um representante do BES, o ‘banco mau’ que ficou com os chamados ativos ‘tóxicos’ do Banco Espírito Santo (BES), já participou esta semana na reunião que juntou a Associação dos Indignados e Enganados do Papel Comercial (AIEPC), o Governo, o Banco de Portugal e a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM).

O BES voltará a estar representado na próxima reunião, marcada para terça-feira à tarde na sede da CMVM, uma vez que o banco agora liderado por Máximo dos Santos deverá ser chamado a contribuir para a solução que permita aos clientes recuperarem algum do dinheiro investido em papel comercial de empresas do Grupo Espírito Santo (GES).

Este papel comercial foi vendido aos balcões do BES aos clientes do retalho e o investimento foi dado como perdido aquando da ‘implosão’ de todo o grupo da família Espírito Santo, em 2014.

Esta semana, depois da reunião que decorreu no Banco de Portugal, nenhuma entidade quis fazer declarações aos jornalistas.

Ainda assim, de acordo com a informação recolhida pela Lusa, no encontro as várias entidades entenderam-se quanto ao desenho de um compromisso, sendo o objetivo agora acelerar o processo, até porque o Governo quer chegar rapidamente a um acordo. Abril é agora o prazo definido como o objetivo para ter um acordo fechado.

Ainda assim, até à finalização do acordo há vários procedimentos a cumprir. Por exemplo, a AIEPC terá de realizar uma assembleia-geral para pôr alguns assuntos à consideração dos associados.

Quanto ao valor que cada cliente irá receber, as entidades envolvidas nas negociações consideram “especulativo” o montante noticiado na imprensa e que aponta para que cada lesado receba entre 100 e 200 mil euros.

Na reunião desta semana não estiveram em discussão valores, mas sobretudo os próximos passos e de onde poderá sair o dinheiro da indemnização de cada cliente.

Em cima da mesa está a possibilidade de o valor a pagar ter várias origens, como o Fundo de Resolução bancário (do Banco de Portugal e participado pelos bancos), o Sistema de Indemnização aos Investidores (na esfera da CMVM) e mesmo do ‘banco mau’ BES.

Até agora, não está a ser equacionada a entrada de dinheiro diretamente do Orçamento do Estado.

Na próxima reunião já deverá começar a ser discutido o modo como será calculado o valor que cada cliente receberá, o que será feito em função de vários critérios, como o investimento que foi feito, mas também a idade da pessoa em causa e mesmo a fortuna pessoal.

Em causa estão 2.084 subscritores de papel comercial que reclamam 432 milhões de euros.

Segundo o que já disse anteriormente a associação que representa os lesados, é provável que haja perdas para os clientes, que não recuperem tudo o que investiram, sendo o objetivo “lutar pelo máximo possível”.

Apesar de os clientes de retalho que se consideram lesados pelo papel comercial do GES terem vindo a desenvolver várias ações para recuperar o dinheiro investimento desde o colapso do grupo, já em 2014, este tema ganhou ênfase depois de, em fevereiro, o primeiro-ministro, António Costa, ter censurado publicamente o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, por estar a "arrastar" uma solução para o problema.

Em junho de 2015, o governador do Banco de Portugal tinha dito no parlamento que a solução para os lesados do BES tinha de vir da CMVM e não da entidade que dirige, uma vez que se trata de valores mobiliários e não de depósitos, e reafirmou que as responsabilidades pelos lesados do papel comercial do BES não podem ser atribuídas ao Novo Banco, mas sim ao próprio BES.