Os taxistas estão visivelmente consternados com o decreto-lei que o Governo tem pronto para a legalização da Uber até ao final do ano. À TVI, o presidente da Associação nacional dos transportadores rodoviários em automóveis ligeiros (ANTRAL) chegou mesmo a acusar o Executivo de ter interesses escondidos nesta medida. Florêncio Almeida está totalmente em desacordo com as regras a que os morotistas da Uber, Cabify e de plataformas semelhantes vão estar sujeitos em comparação com aquelas que os taxistas têm que cumprir. Vão mesmo pedir 6 milhões de euros de indemnização à Uber.

 A formação destes motoristas vai ser de 30 horas: porque é que dos motoristas de táxi há-de ser 125? Não haverá aqui um benefício? Não haverá aqui, da parte do Governo, realmente, toda a facilidade para com estes senhores? Isto é inaceitável".

Este é apenas um dos pontos, que mostram o "desplante" do Executivo, com o presidente da ANTRAL a "lamentar" que os detalhes do diploma tenham sido comunicados pelo ministro do Ambiente à comunicação social, antes mesmo do que aos taxistas, com quem o Governo "pouco" quis negociar, denuncia. 

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Depois, os taxistas queixam-se também de não haver preços fixados para a Uber. "Eles praticam aquilo que querem e nós somos obrigados a praticar aquilo que o governo nos impõe, há quatro anos que não há aumentos".

"Para a indústria dos táxis fecham as torneiras... Alvarás? Não existem? Licença, mas de quem, quando hoje o licenciamento é feito pelas câmaras municipais?", questiona ainda Florêncio de Almeida.

A angariação de clientes, que a Uber ou Cabify é e terá mesmo de ser feita através da aplicação, não podendo apanhar pessoas na rua, é uma medida de fachada para os taxistas. "Eu tenho um carro e vou aderir a plataforma dessa natureza, eu arranjo os meus próprios clientes. Quando o cliente chamar, se gostar do meu serviço, escusa de chamar pela app". O responsável da ANTRAL reconhece que isso "naturalmente" já acontece com os taxistas, mas eles têm "esse direito". 

Quanto à obrigatoriedade de passar fatura eletrónica, novamente o ceticismo: "Podem dizer o que quiserem e não vão ser faturados praticamente".

Pressa do Governo faz desconfiar

Para a ANTRAL, "neste processo só tem havido falsidade e tanta pressa da parte do Governo que até deixa algumas dúvidas". Florêncio de Almeida foi mais longe e fez algumas acusações, sem apontar alvos diretos, a não ser um, que não faz parte do Executivo, mas já foi primeiro-ministro

"Neste governo há-de haver muitos políticos a ficar com as mãos sujas e quando se vier a limpar a gente vai saber o porquê de toda esta situação. Vamos analisar projeto, até hoje nada do nosso contributo foi aceite. Vamos analisar o problema do Durão Barroso que foi para o maior acionista desta plataforma [o Goldman Sachs]".

Uma coisa é certa: os taxistas vão endurecer o braço-de-ferro, já tinham manifestação marcada para o dia 10 de outubro - "nunca na vida vai ser desmarcada" - e prometem não ficar por aí.

A indústria não vai parar, vai continuar com a sua luta até ao fim, mesmo depois de o diploma sair a indústria não vai deixar com ida a certeza de fazer as suas manifestações, as suas paralisações porque isto é inaceitável, sermos obrigados a cumprir um serviço público e estes senhores serem obrigados a cumprir rigorosamente com nada. Nunca mais desistiremos. Isto é para privilegiar meia dúzia de capitalistas e é para beneficiar alguns elementos do Governo". 

Também a Federação Portuguesa do Táxi está insatisfeita. Carlos Ramos disse à TVI ficou "surpreendido" pelas novas regras e que o anúncio do novo diploma para regulamentar a atividade prova que há plataformas de transporte a operar na ilegalidade. Por isso, pede ao Governo que as impeça de trabalhar até as regras entrarem em vigor (veja os vídeos, em cima).

Exigência de 6 milhões por prejuízos

A Uber já se mostrou satisfeita com as regras anunciadas pelo Governo, falando num "primeiro passo" para uma mobilidade mais "moderna" em Portugal.  

O processo promete, no entanto, não ser pacífico, mesmo com a legalização que o Governo está a levar a cabo.

Para além das formas de luta, como protestos, a ANTRAL anunciou que vai pedir seis milhões de euros de indemnização por prejuízos.

“Vamos pedir seis milhões de euros”, disse o presidente Florêncio Almeida, aos jornalistas, no final de uma conferência de imprensa. “O processo vai entrar brevemente nos tribunais”.

Na indemnização que vai ser pedida, a ANTRAL exige também que sejam responsabilizadas as autoridades que não impediram a operação daquela plataforma de transporte privado, tal como tinha sido determinado em tribunal.