O responsável da KPMG em Angola, Vítor Ribeirinho, disse esta sexta-feira que o setor bancário nacional resistiu aos efeitos do caso Banco Espírito Santo Angola (BESA) e que a intervenção do banco central foi feita na altura certa.

Questionado pela Lusa durante a apresentação, em Luanda, da 5.ª edição do estudo sobre o setor bancário de Angola (2013), realizado pela KPMG, Vítor Ribeirinho destacou a «boa maturidade» revelada pela banca angolana, apesar da dimensão do problema no BESA.

«Não conseguimos descortinar quaisquer riscos materiais para o setor, em termos sistémicos. Não vimos uma deterioração, por exemplo, nos níveis dos depósitos, que seria um sinal de preocupação do setor relativamente à confiança das instituições», explicou.

O BESA, detido em 55,71% pelo BES português, enfrenta um problema na carteira de crédito que levou à intervenção do Banco Nacional de Angola (BNA), com a nomeação de dois administradores provisórios, entre outras medidas de saneamento.

Esta posição é atribuída ao volume de crédito malparado, que várias fontes estimaram nos últimos meses em 5,7 mil milhões de dólares (cerca 4,4 mil milhões de euros), e que chegou a ser alvo de uma garantia soberana emitida pelo Estado angolano, que será revogada, segundo anúncio feito em agosto pelo BNA.

O «comportamento» do setor e o facto de não se ter registado, até agora, um recuo nos depósitos na banca angolana, demonstra, para o responsável da KPMG em Angola, que a intervenção foi acertada.

«Vem corroborar que a intervenção do banco central neste processo foi feita no timing, que se conseguiu distinguir um caso concreto daquilo que é a realidade do setor. É claramente uma situação atípica e eu acho que o mercado percebeu isso», sublinhou.

O volume de crédito vencido - que esteve na origem do problema no BESA -, nas 24 instituições bancárias angolanas analisadas pela KPMG voltou a registar um aumento em 2013, de 31,9% em termos homólogos.

No final do ano passado, o total vencido do crédito concedido situava-se em 8%, enquanto em 2012 era de 6,83%.

«É inevitável que o aumento do crédito que se tem vindo a verificar nos últimos anos possa também conduzir a um aumento do crédito vencido. É a lógica da vida», admitiu ainda Vítor Ribeirinho.

Na mesma análise da consultora, baseada em dados oficiais fornecidos pelos bancos e pelo BNA, o crédito bancário em Angola, embora a um «ritmo inferior a anos anteriores», voltou a crescer no último ano, 12,9% quando comparado com 2012, demonstrando que continua a existir liquidez na banca, o que nem sempre corresponde a projetos para obtenção de crédito viáveis ou processos corretamente instruídos.

Essa liquidez é proveniente dos depósitos dos clientes, que aumentaram neste período 16,8%. Tendo em conta o processo em curso de desdolarização da economia angolana, 60% dessas entregas já foram feitos na moeda nacional (kwanza), contra os 53% de 2012.

«O setor bancário em Angola continua a evoluir da forma bastante significativa, tendo o ativo consolidado apresentado um crescimento de 12,45% face a 2012. Considerando que existem praticamente o mesmo número de instituições financeiras a operar em 2013 e 2102, trata-se de um crescimento muito relevante», assegura a KPMG.

Quando estão em processo de instalação em Angola mais cinco bancos, aquela consultora destaca, entre os vários desafios de curto prazo, um maior rigor na avaliação da qualidade dos ativos ou o desenvolvimento de processos de recuperação de crédito - face ao crescimento do malparado -, além da aplicação de legislação internacional.

A banca angolana empregava, no final de 2013, cerca de 18.800 trabalhadores, distribuídos por 1.318 agências em todo o país.