A funcionar há cerca de um mês, o novo serviço de estacionamento Kiss & Fly no aeroporto Humberto foi anunciado como gratuito durante 10 minutos – isso é – mas quando foi lançado, a 9 de agosto, não foram comunicados os valores a pagar depois desse período. Ora, vários utilizadores acabam surpreendidos, primeiro, assustados, depois, porque chegam a pagar quase 70 euros por menos de 2h30 de paragem. Com o Kiss & Fly, quem não estiver devidamente informado também o dinheiro pode voar rapidamente da carteira em menos de nada.

Primeiro: com o hábito muito português de ir buscar e levar familiares e amigos ao aeroporto, facilmente se poderá ultrapassar os 10 minutos gratuitos. Quanto se paga, então, depois disso?  Foi isto que a ANA - Aeroportos não anunciou de antemão, quando deu a conhecer o serviço. Agora, confrontada pela TVI24, explicou:

Conforme referido no tarifário existente e colocado na entrada do parque Kiss & Fly, se o cliente ficar mais 1 ou 2 minutos para além dos 10 minutos iniciais paga 1€. Ou seja, 1,00€ por período de 5 min após os 10 min grátis e 2,00€ por cada 5 min acima dos 15 min”.

 

Contas feitas, a primeira hora fica em 19€, mas de acordo com a ANA a segunda já aumenta para 24€, e assim sucessivamente nas restantes horas. No entanto, e mesmo depois de questionada sobre se os clientes que não utilizam a hora completa, pagam a totalidade ou apenas o correspondente ao tempo efetivamente utilizado, a ANA limitou-se a responder apenas:

Cada fração de hora a partir da 1ª hora tem o valor de 24€.

Ora, como podemos ver no bilhete de estacionamento que se segue, foi cobrado um total de 67 € (19 + 24 + 24), sem o carro ter ficado estacionado as três horas completas.

Estando em causa uma concessão privada, é-se livre  de praticar os preços que bem entender. Desde que estejam afixados e com o custo por frações de tempo. Mesmo 60 minutos podem ser considerados uma fração de tempo e é o que a ANA está a fazer, cobrando a totalidade da hora. 

"Se tem essa modalidade de pagamento afixada, a pessoa tem de pagar. Não há saída", diz à TVI24 a Deco.

Assim funciona o mercado concorrencial e publicitário. Daí a importância de ser um consumidor prevenido e informado para não ter más surpresas.

Um reparo: o bilhete em causa, de 27 de agosto foi dia de greve na segurança do aeroporto, pelo que quem não tivesse familiares que ficassem na fila para o controlo enquanto iam ao check-in, arriscava-se a perder o voo.

Omissões que podem sair caro

A empresa que gere o aeroporto de Lisboa argumenta que o serviço em causa é “destinado à largada de passageiros” e que o princípio é que se pratiquem “estacionamentos curtos”.

Desta forma o utilizador tem agora à sua disposição uma área de estacionamento onde e com toda a comodidade, dispõe dos primeiros 10 minutos grátis para e de forma tranquila, deixar o passageiro. Como referido anteriormente o tarifário com todos os valores para além dos 10 minutos iniciais está disponível para consulta e colocado na entrada no parque Kiss & Fly”

Acontece que o comunicado de 8 de agosto a anunciar o serviço, disponível online e que encontrou grande eco na comunicação social, não se refere nem a esses valores, nem onde as pessoas poderão consultá-los. E nem indica quais são as alternativas.

Fonte: Site ANA - Aeroportos

 

"No tarifário colocado na entrada do parque são visíveis todos os valores", responde ainda a ANA. A TVI24 verificou que o placard com os preços realmente existe à entrada do parque, mas estes são pouco perceptíveis à distância, para quem vem a conduzir poder reparar e conseguir ler tudo, em andamento. 

Depois, a mancha visual naquela área não ajuda (há uma série de placas com indicações para partidas/chegadas/terminal 1/terminal 2 e parques de estacionamento). Mas estando afixados, perante a lei, basta. 

As alternativas

A mensagem passada nos canais de comunicação da empresa, a mesma que fez chegar à comunicação social quando anunciou o serviço, centra-se exclusivamente na gratuitidade, sendo omissa em relação aos outros valores. Tal como refere que não o pagamento não será, de todo, nos montantes a que as oessias estão habituadas nos outros parques do mesmo aeroporto. E para quem raramente se desloca ao aeroporto, a estupefacção poderá ser ainda maior. 

Porquê esta diferenciação na cobrança, estando em causa parques do mesmo aeroporto? A ANA agora já fala das alternativas.

O objetivo deste parque [o Kiss & Fly] é a curta rotação e destinados a estacionamentos inferiores aos 10 minutos grátis. Para estacionamento onde o cliente verifique a necessidade de deixar a sua viatura por períodos mais prolongados, têm a sua disposição o parque 1 nas partidas ou 2 nas chegadas com valores hora de 3,40€ e 3,20€ respetivamente.”

Deco avisou

A Deco esteve presente numa reunião com a administração, há alguns meses, e logo nessa altura levantou a questão do preço, para além de ter defendido que o período gratuito deveria ser superior.

Ainda não havia valores definidos, mas vimos logo nessa altura que, em primeiro lugar, o que estava em causa para além de tornar mais fluir o trânsito, estavam questões de receitas no aeroporto. E que necessariamente iriam entrar em choque com o tipo de comportamento que os portugueses têm de utilização do aeroporto, porque ainda vão despedir-se dos familiares e receber os familiares ao aeroporto e sabemos que muitas vezes os aviões andam com atraso”.

Jorge Morgado, membro da direção da Deco, diz ainda à TVI24 que se as pessoas não forem “suficientemente avisadas, apanham surpresas muito desagradáveis e sentem-se espoliadas”, quando até aqui pagavam um valor de parque de estacionamento e, de repente, passam a pagar outro.  

A associação vê na opção da ANA uma resposta ao “problema de recursos”, já que a empresa foi foi privatizada e  “o aumento das taxas do aeroporto está a sentir-se”.

“Não há um problema legal, há um problema de bom relacionamento com os consumidores. Não se está a prevenir o conflito. Todos os dias, largas centenas de pessoas estacionam no aeroporto. Se não foram suficientemente avisadas do aumento excessivo e não devidamente anunciado daquele serviço, independentemente de a empresa ter aumentado os preços, falta uma campanha de informação adequada, para impedir que pessoas menos informadas e menos atentas tenham de pagar umas dezenas de euros a mais”, assinala.

Como reclamar?

A Deco entende que deve haver informação suficiente, “por folhetos, anúncios de jornal, publicidade paga, informação suficiente, para que as pessoas se possam orientar e tomar decisões”.

A quem já sofreu na pele com uma fatura imprevista para pagar, a Associação de Defesa do Consumidor defende que “vale a pena reclamar”.

É uma forma de pressão também sobre a administração do aeroporto. E vale a pena reclamar para a Deco, tentaremos fazer eco dessa reclamação”  

A própria ANA - Aeroportos admite que já recebeu “algumas reclamações”, adiantando que estão “a ser respondidas de acordo com o procedimento em vigor”. Faz questão de realçar, porém, que tem recebido “algumas opiniões e comentários bastante positivos por parte de utilizadores que veem agora muito melhorado o problema de acessibilidades verificado anteriormente, em que se gerava o caos no acesso ao curbside das partidas do aeroporto de Lisboa”.

Lembra ainda que “ igual procedimento já está implementado nos aeroportos de Faro e Porto, desde junho e Outubro de 2015, respetivamente, com muito bons resultados ao nível da acessibilidade aos terminais aeroportuários”.