O ex-banqueiro João Rendeiro negou esta terça-feira que tenha ocultado informação aos investidores sobre o endividamento da Privado Financeiras, o veículo financeiro do BPP para adquirir ações do BCP.

«Havia uma amplíssima informação sobre os níveis de endividamento da Privado Financeiras», declarou João Rendeiro, em resposta a perguntas da advogada Fátima Godinho, mandatária de investidores lesados pelo banco e que se constituíram assistentes no processo, escreve a Lusa.

Rendeiro, que já foi inquirido pelo Ministério Público (MP), admitiu que se enganou ao investir em ações do BCP, mas referiu que a decisão foi tomada numa «base estratégica» de que se tratava de um investimento «interessante».

«Não se pode ser preso por ter cão e preso por não ter cão», disse o ex-banqueiro, sustentando que havia que tomar uma decisão entre proceder a um aumento de capital da Privado Financeiras ou liquidar este veículo de investimento que apostou em ações do BCP em 2007 e 2008.

Durante a inquirição feita por Fátima Godinho, João Rendeiro garantiu que, no início de 2008, a Privado Financeiras tinha liquidez para «pagar a toda a gente» e que a decisão do aumento de capital foi tomada a 18 de janeiro de 2008, ficando afastada a ideia de liquidação deste veículo de investimento.

Rendeiro insistiu que se a Privado Financeiras vendesse, na altura, as ações que detinha do BCP isso dava para «pagar a toda à gente», mas que a decisão tomada foi outra, porque o «cenário de investimento no BCP ainda era interessante», apesar da entrada de Carlos Santos Ferreira para a presidência do BCP ter sido um «choque» para os investidores.

O arguido e fundador do BPP garantiu que, com o aumento de capital, houve «a firme» intenção da Privado Financeiras de adquirir 100 milhões de ações do BCP e assegurar uma participação de 4% no BCP, observando que não se tratava de um «objetivo mágico» ou irrealista.

Quanto ao aumento de capital da Privado Financeiras, Rendeiro insistiu que «não se ocultou informação» aos investidores, alegando, que nem sequer «estava preocupado» sobre se estes iam ou não participar nesse aumento de capital.

O relatório da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), a reunião com os responsáveis do Banco de Portugal em finais de janeiro de 2008 e a apresentação aos clientes e investidores, discutindo-se aqui se as informações eram verdadeiras e corretas, foram outros temas que dominaram a inquirição da advogada Fátima Godinho.

Além de Rendeiro, são arguidos no julgamento do caso BPP os ex-administradores Salvador Fezas Vital e Paulo Guichard, tendo este último comparecido hoje, pela primeira vez.

Os investidores do BPP, entre os quais Francisco Pinto Balsemão, Stefano Saviotti e Joaquim Coimbra, terão sido lesados em mais de 40 milhões de euros com os investimentos da Privado Financeiras, que apostou exclusivamente nas ações do BCP, que viriam a desvalorizar drasticamente.

A acusação do MP entende que, durante o aumento de capital da privado Financeiras, o BPP não transmitiu aos clientes o montante do empréstimo que fizera junto do JP Morgan e a situação de insolvência deste veículo junto do Banco.

Rendeiro já classificou de «absurdas» as acusações do MP e José Miguel Júdice, seu advogado, já observou que o banqueiro não pode ser condenado por burla qualificada porque «não enriqueceu, nem fez que outros enriquecessem», excluindo assim que houvesse dolo.