Para o prémio Nobel da Economia Joseph Stiglitz, que esteve esta terça-feira em Lisboa, a desigualdade e a austeridade são escolhas políticas, mesmo num contexto difícil na zona euro. Ao mesmo tempo, defendeu um aumento de impostos de forma progressiva e para as empresas portuguesas que não investem no país. Perante um novo Governo em Portugal, usou a palavra "esperança" para o classificar.

O economista norte-americano disse aos jornalistas, já depois da conferência ‘Desigualdade num Mundo Globalizado’, na Fundação Calouste Gulbenkian, que Portugal deve “focar-se na estratégia de crescimento económico”. Ela deve ser baseada, em parte, “num aumento de impostos que não magoe a economia”.

“Acho que há margem para aumentar impostos de uma forma progressiva. Ou seja, sem magoar os mais pobres, que foi o que aconteceu no passado”


Joseph Stiglitz, que venceu o Nobel da Economia em 2001, já tinha sugerido, durante a conferência, que os impostos podem ser reduzidos para empresas que invistam no país e aumentados para empresas que não o façam.

Lembrando que alguns países avançaram com a redução dos impostos sobre as empresas durante o período de austeridade, como Portugal, o professor universitário disse que “não há provas de que leve a mais investimento”.

Admittiu que “ninguém gosta de impostos”, mas disse que eles são importantes para “investir em pessoas, infraestruturas e tecnologias, o que cria oportunidades para um crescimento económico de longo prazo”.

Recorde-se que o anterior Governo PSD/CDS-PP aprovou uma reforma do Imposto sobre o Rendimento de Pessoas Coletivas. reduzindo a taxa nominal deste imposto para 21% este ano. Pretendia reduzi-la para 17% até 2019.

Mas agora há um novo Governo e ainda falta ver o que vai colocar em prática, em concreto. Sobre o Executivo de António Costa, o Nobel entende que "há uma esperança considerável" neste novo Governo. "Acredito que o novo Governo está a tentar descobrir como promover o crescimento económico com os constrangimentos da zona euro”.

Na conferência, que decorreu ao final da tarde, o Nobel da Economia 2001 afirmou que, mesmo num “contexto de austeridade” na zona euro, a austeridade também é “uma escolha”. Tal como a desigualdade.

“A desigualdade é uma escolha. Não uma escolha que os pobres fazem, mas uma escolha política. É um resultado das medidas que são tomadas”


E defendeu, por contraponto, que “há várias medidas que podem ser tomadas”, mesmo dentro desse contexto, para estimular o crescimento económico.  

Joseph Stiglitz advertiu para a redução dos salários médios entre as pessoas mais pobres dos Estados Unidos, nos últimos 60 anos, e o aumento dos recursos de 1% dos mais ricos do país, que “mais do que duplicou” nos últimos 30 anos.

Perante a crise económica mundial, o professor universitário disse ainda que as recessões económicas levaram a “brutais aumentos” na desigualdade: “Há mais desemprego, os salários são cortados e, principalmente onde a austeridade foi aplicada, há um corte nos serviços básicos, que são importantes para as pessoas com menos recursos”.

“91% da recuperação económica foi para os 1% com mais recursos”, assinalou ainda, criticando as celebrações de países europeus, como Espanha, da redução das taxas de desemprego para valores ainda “inaceitáveis”.

“Estão a celebrar o fim da recessão com uma taxa de desemprego de 23% e de desemprego jovem perto de 50%. Para mim, isso é uma depressão e não um motivo de celebração”


E, fez questão de sublinhar, muitos jovens emigraram, deixando de entrar nas estatísticas,

O Nobel concluiu que houve um “aumento global da desigualdade”, que é “particularmente problemática” na Europa, e deixou uma questão no ar, começando por constatar que "a austeridade reduz a performance económica e promove a desigualdade".

"Mas não é economia. É política. Conseguiremos alcançar as mudanças políticas que levem a uma sociedade igualitária?”

O primeiro-ministro, António Costa, almoçou precisamente hoje com Joseph Stiglitz. O encontro contou, também, com a presença do ministro da Economia, João Galamba, e do deputado socialista Paulo Trigo Pereira.