«Eu disse-lhe: Vítor, estou a bordo, mas vamos arrepender-nos». José Honório foi administrador do Banco Espírito Santo, nas últimas semanas que antecederam o colapso, e do Novo Banco, por apenas mês e pouco. Aceitou ir para o BES a convite de Vítor Bento e por causa da insistência do Banco de Portugal. «Ninguém me apontou uma pistola à cabeça, mas fiquei sem margem», uma vez que o supervisor da banca, «com simpatia», disse-lhe que era imprescindível para o país que aceitasse o cargo. Só que o BdP pintou um quadro bem diferente do que aquele que Honório veio a encontrar. Nesse período, confessou à comissão de inquérito parlamentar, «havia um mundo novo todos os dias» no BES.

A sua audição foi algo atribulada por Ricardo Salgado que, coincidência ou não, enviou no mesmo dia, aos deputados, uma carta a detalhar as reuniões que teve com membros do Governo e com o Presidente da República, em maio de 2014. O BES ruiu logo depois, em julho.

José Honório também confirmou algumas dessas reuniões, até porque esteve presente nelas, e entende que tanto o Governo como a Comissão Europeia não podiam ter ficado «indiferentes», como terão ficado, ao pedido de ajuda institucional que o Grupo Espírito Santo solicitou. Institucional, não financeiro.

O resumo da audição em 13 pontos:

1 - «Não podia sequer imaginar que desmoronamento» do grupo e do BES «fosse indiferente às autoridades do país e da comissão europeia»

2 - Sugeriu que o GES pedisse ajuda ao Governo e à Comissão Europeia e não se arrepende: «Acho que fiz muito bem». «Estávamos na última revisão da troika», com a saída limpa à porta.  «Era impensável não fazer nada». «Quem tinha de saber, se não sabia ficou a saber». Até porque o grupo tinha uma dívida de 7,6 mil milhões de euros, 4,5% do PIB nacional. O impacto na economia seria enorme

3 - Confirmou as reuniões que Salgado teve «ao mais alto nível», com Passos Coelho, Paulo Portas, Maria Luís Albuquerque e Durão Barroso, porque nelas esteve presente. Não se recorda se foi em abril ou maio, meses antes do colapso. Com Cavaco Silva, com quem o ex-presidente do BES diz ter tido duas reuniões, não sabe se esses encontros existiram

4 - Essas reuniões foram para pedir ajuda institucional, «tempo». «Não me recordo do Dr. Salgado ter solicitado uma solução pública, o que ele pediu foi tempo para entrar num processo de reestruturação» do GES e «sensibilidade para um financiamento» ao grupo por parte da Caixa Geral de Depósitos. Com o BES, não sentiu «ponta de preocupação» em abril de 2014
 
5 - Integrou a administração de Vítor Bento a seu convite, mas só depois da insistência do Banco de Portugal, que lhe transmitiu que «o BES era um banco sustentável, sobretudo depois do aumento de capital. Aceitei convencido da viabilidade»

6 - No entanto, quando assumiu funções, deparou-se com um «mundo novo todos os dias». Primeiro, ficou «em choque». «Era uma realidade completamente distinta daquela que me tinha sido relatada e que poderia imaginar». «À medida que a situação vai evoluindo no BES, aí todos nós, dos três administradores e dos outros, também, fomos sendo confrontados com situações que não conhecíamos». «Fui convidado para um projeto sustentável, de um banco que tinha a reputação abalada, mas que ia ser recuperada. Esse era o quadro que nós tínhamos. Esse quadro veio a ser completamente desmentido»

7 - Teve conhecimento da resolução do Banco de Portugal no dia 1 de agosto, à noite. Garante que não foi consultado, «de todo», sobre a solução encontrada. Acabou por ficar no banco mesmo depois disso, e apesar de a via escolhida decretar uma «tarefa» para vender o banco e não ser mais o «projeto» que tinha abraçado. Fê-lo por «espírito de missão». Saiu passado um mês e pouco

8 - Antes disto tudo, tinha sido convidado, em março de 2014, por Ricardo Salgado e José Manuel Espírito Santo, para presidir a comissão executiva da RioForte. Como não conseguia ter acesso a mais informações sobre a ESI, que era acionista da holding não financeira do GES, e quando soube que o passivo era tão elevado (veio a saber-se, depois, vinha sendo ocultado desde 2008), recusou o cargo, porque percebeu que o projeto de reestruturação «não seria exequível» . Nem o salário de 2,1 milhões de euros anuais o aliciou

9 - Depois desse episódio, aceitou que o citassem como sénior advisor do GES, pela reputação que lhe conferiam, e por um «imperativo de consciência para com o país». Foi nessa altura que aconselhou o pedido de ajuda. Para não se gerarem dúvidas sobre a sua independência, recusou qualquer remuneração
 
10 - Na sequência disso, esteve presente em algumas reuniões do conselho superior do GES, que reunia os cinco ramos da família Espírito Santo, mas não sabia que as conversas, supostamente «informais e privadas», eram gravadas. Até porque «os telemóveis e tablets ficavam à porta, intecetados por um segurança». Ninguém lhe perguntou se as suas declarações podiam ser gravadas, nem deu qualquer consentimento

11 - «Se não tivesse sido convocado, teria pedido para vir cá». José Honório não deu qualquer entrevista à comunicação social até agora, mas confessou ter-se sentido «incomodado» com as notícias «falsas» que vieram a público sobre si

12 - Uma delas, sobre a alegada indemnização que teria recebido quando saiu do Novo Banco. «Recebi zero, porque fui eu que apresentei a minha renúncia» 
 
13 - Salgado só lhe telefonou uma vez na vida, em meados de março de 2014, para o desafio da RioForte, que ele não veio a aceitar. Mesmo depois disso, não manteve com ele qualquer relação. «Não digo isto pelo facto de o Dr. Salgado estar na situação em que está agora, mas porque é verdade». Quando acabou por vir a integrar a vice-presidência do BES, o ex-presidente revelou «desconforto» sobre a sua escolha, num telefonema feito a Vítor Bento, que deu «autorização» a Honório para revelar
 
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