Na primeira audição na comissão parlamentar de inquérito, José de Matos declarou que valores entre os quatro e cinco mil milhões de euros de recapitalização, adiantados publicamente pela imprensa, são números "claramente superiores" aos que estavam em cima da mesa nos primeiros meses do ano.

Sem precisar um montante, José de Matos garantiu, contudo, que Mário Centeno está claramente avisado para a necessidade de aumentar o capital da CGD.

O ministro das Finanças foi alertado para a necessidade efetiva de aumento de capital. Esse aumento deveria ser significativo. (...) É necessário fazer um aumento de capital e mais cedo do que tarde. Isso é verdade", declarou José de Matos, na comissão parlamentar de inquérito sobre a CGD.

O presidente cessante da CGD, que se mantém em funções a pedido do governo, revelou ter notado a necessidade de capitalização na "primeira metade de 2015", mas escusou-se a adiantar qual o montante que acha satisfatório.

Sem "o mínimo orgulho" nos prejuízos

Na primeira audição na Comissão Parlamentar de Inquérito, formada por imposição de PSD e CDS-PP,  o presidente cessante da Caixa Geral de Depósitos (CGD) declarou nada ter podido fazer para evitar os prejuízos do banco estatal.

Se era preciso que alguém assinasse os prejuízos que a Caixa teve, eu assinei-os, porque era preciso que alguém os assinasse", vincou José de Matos.

Não tenho o mínimo orgulho em ter assinado os prejuízos da Caixa", reconheceu ainda o presidente da CGD.

Na comissão de inquérito que avalia a gestão do banco público desde o ano 2000 e também o processo de recapitalização da Caixa Geral de Depósitos, José de Matos declarou-se também "ofendido" por eventuais ideias de que escondeu os maus resultados.

Só esconde prejuízos quem assina lucros que deviam ser prejuízos", frisando ainda ser falso haver redução de depósitos no banco com as notícias dos meses recentes.

As contas da CGD, auditadas e sujeitas à mais apertada e intrusiva supervisão de sempre, foram devidamente explicadas nos relatórios que são públicos e foram aprovadas em assembleias-gerais em que o acionista Estado sistematicamente aprovou também um voto de confiança no Conselho de Administração e nos órgãos de fiscalização", lembrou José de Matos. 

Não acreditem quando alguém disse que conseguiu roubar depósitos à Caixa", declarou José de Matos, que se queixou também de discriminação no setor bancário.
 

Remunerações abaixo da média

Para José de Matos, gestores e bancários da CGD têm desempenhado as suas funções num ambiente desfavorável face aos bancos concorrentes.

Quer os administradores da Caixa, quer os seus trabalhadores, exerceram funções num quadro claramente discriminatório face ao resto do setor", afirmou o gestor, tendo em conta as limitações ao nível da remuneração impostas à CGD ao longo dos últimos anos, tal como aconteceu à maioria das empresas públicas e semipúblicas, que impediram o banco de acompanhar o nível de salários dos privados que atuam em Portugal.

"Bancos vão ter que encolher"

Sobre o futuro do banco do Estado, o presidente cessante admitiu que terá de fechar mais balcões e reduzir o quadro de pessoal, tal como os restantes bancos que atuam em Portugal.

É preciso continuar a fazer um pouco mais. Não há economia para tanta banca neste país", afirmou o gestor.

É assim a vida. Os bancos vão ter que encolher, todos eles, e nós também. Vai ter que haver uma redução da banca. A próxima gestão vai ter que o continuar a fazer", sublinhou José de Matos.

Sobre os cinco anos em que liderou a CGD, José de Matos vincou não ter havido nenhum processo de despedimento, mas sim o recurso a programas de reformas antecipadas e de rescisões por mútuo acordo. Mas admitiu que a redução de pessoal terá de continuar.

Não é sequer um problema português. É um problema europeu. A gente nova não usa agências bancárias, usa serviços bancários. E a Caixa tem muitas capacidades nessa área, ao contrário do que se possa pensar", referiu José de Matos. 

As audições da comissão parlamentar de inquérito à CGD começaram esta quarta-feira. Prosseguem quinta-feira com as audições do governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, e, na sexta-feira, do ministro das Finanças, Mário Centeno.