O ex-administrador executivo do Banco Espírito Santo e responsável pela gestão de risco, Joaquim Goes - que foi afastado pelo Banco de Portugal a 30 de julho, o dia da apresentação de resultados do banco -, revelou esta segunda-feira, na sua audição na comissão de inquérito ao BES, que o crédito ao BES Angola foi uma «opção» do banco, decidida pela comissão executiva, sem pareceres prévios ou avaliação de risco.  Regra geral, a atribuição de empréstimos era decidida em conselhos de crédito e, «normalmente», Ricardo Salgado não estava presente. Mas o caso do BESA é diferente dos outros.

É uma «decisão que ultrapassa» o âmbito decisor normal, do conselho de créditos. «Não é uma decisão de parecer e risco. Foi uma opção que o Banco quis tomar na altura». Um investimento «estratégico», com «decisão da comissão executiva do Banco, em última instância»


Comissão essa que era presidida pelo homem conhecido por «dono disto tudo». «Os processos de crédito eram decididos em conselhos de crédito, onde estavam administradores e, normalmente, Ricardo Salgado não estava presente». Goes não tem, de resto, conhecimento de créditos que tenham sido concedidos por «pedido» do ex-presidente do BES. 

Mas os créditos ao BESA, no valor de 5,7 mil milhões de euros, tiveram o dedo da comissão executiva liderada por Salgado. Uma decisão que veio a revelar-se fatal quando o BES implodiu, uma vez que a garantia de Angola dada a parte desses empréstimos (cerca de 3,5 mil milhões de euros) foi retirada e o dinheiro pura e simplesmente desapareceu, o que fez com que tivesse de se injetar muito mais do que era suposto no Novo Banco, quando foi criado no âmbito da resolução. Só que, salientou o ex-administrador executivo do BES, a garantia «cobria integralmente o risco». 

Segundo Joaquim Goes, o BES Portugal desconhecia os clientes finais de atribuição de crédito em Angola. «Com certeza», respondeu, quando questionado por Miguel Tiago (PCP).  O ex-administrador do BES acrescentou, depois, que o BESA gozava de «perfeita autonomia», operando no âmbito do direito angolano. «Havia uma lógica de funcionamento que em nada permitia inferir» que houvesse problemas, salientou. Mesmo em termos de mecanismos de acompanhamento externos, não houve, segundo diz, «nenhum indício».

Nem mesmo supervisor Banco Nacional de Angola. Houve, até, recordou, «evidências públicas de conforto» sobre a situação do BESA. Em maio de 2012, foram dados a conhecer resultados dos stress tests com metodologias à europeia. E, nomeadamente quanto à carteira de crédito e risco dessa mesa carteira, «o que foi transmitido pelo BNA foi que i BESA foi dos bancos que melhor se comportou».

O ex-administrador executivo do BES revelou, também, que a equipa de gestão de Ricardo Salgado decidiu atuar junto do BES Angola para reduzir o rácio de crédito sobre depósitos e alargar a rede de balcões.

«Nós considerámos que Angola tinha que ser alvo de uma política especial. Daí, ter-se enviado uma equipa de gestão nova, com um plano de negócios diferentes»


No entanto, frisou, «a alteração estrutural no rácio de créditos sobre depósitos não acontece em pouco tempo», bem como o alargamento da rede de balcões. Era preciso tempo para concretizar a reestruturação, mas não houve.

ESI: Salgado pediu rating em meados de 2012, sem avaliação desse ano

Já a propósito da Espírito Santo Internacional, Goes revelou que, «em meados de 2012, Ricardo Salgado pediu ao diretor de risco global, um rating para a ESI». «O BES não tinha exposição direta à ESI, nem indireta, e, portanto, esse rating não estava no quadro das necessidades imediatas do banco». E, «curiosamente» foi aprovado. «Estamos a falar de julho de 2012, referente a contas de 2011», salientou o ex-administrador. 

Segundo a KPMG, a metodologia era idêntica à aplicada noutros casos, não havendo «qualquer tipo de favorecimento», frisou aos deputados. «O que o departamento de risco global fez foi só isso». «Eu não tive conhecimento, na altura, dessa matéria, mas se tivesse conhecido, teria assinado esse rating por baixo, tendo por base a informação disponível na altura e a metodologia utilizada», acrescentou.

Mesmo nas contas de 2012, os capitais próprios eram de 855 milhões de euros, portanto de um ano para o outro, a diferença não ia ser muita, reforçou. 

Miguel Tiago (PCP), já na segunda ronda, criticou as «aventuras privadas» que se faziam no GES. «É normal atribuir um rating para uma empresa que exige uma confiança extraordinária, sem avaliação?  Eu, se tentar enganar um banco para comprar uma casa, com ordenado falso, é um instante até me apanharem», ironizou.