O antigo ministro das Finanças João Salgueiro considerou esta quinta-feira que o único objetivo comum da "convergência de esquerda" é "ver-se livre do Governo de direita", mas reconheceu há um preço a pagar por um Governo de gestão.

"É difícil ver ali um programa de desenvolvimento nesta estratégia conjunta, é uma estratégia de oportunidade", afirmou João Salgueiro, em declarações aos jornalistas no final de uma audiência com o Presidente da República, a propósito da "convergência de esquerda" conseguida pelos acordos entre PS, BE, PCP e PEV.

Lembrando que "a atual convergência de esquerda não foi a eleições", João Salgueiro vincou a ausência de objetivos comuns: "o objetivo comum é ver-se livre de um Governo de direita, mas isso não é objetivo estratégico, é tático", referiu.

João Salgueiro, que começou por sublinhar que Portugal precisava de "uma convergência estratégica e não tática" e apontou uma ‘aliança' PS/PSD como uma "convergência estratégica" por terem o mesmo conjunto de prioridades e objetivos, considerou ainda que "a convergência de esquerda" é "uma ideia útil" do secretário-geral do PS, António Costa.

Contudo, acrescentou, essa convergência devia ter sido feita antes, porque "não se muda o desempenho e o panorama partidário em semanas".

"Leva anos, é preciso criar uma confiança e uma convergência de objetivos", disse.


Como exemplo da falta de sentido estratégico da "convergência de esquerda", o antigo ministro das Finanças do Governo de Francisco Pinto Balsemão apontou a promessa de redução do IVA da restauração.

"É útil, mas há muitos outros setores que precisavam", considerou.


No início da declaração que fez aos jornalistas, João Salgueiro já tinha também falado sobre a solução de um Governo de gestão, lembrando que ele próprio esteve num executivo de gestão durante seis meses.

"O preço que se paga não é o que se faz naquele período, mas é o que não se faz e a herança que fica que é muito má", frisou, lembrando que no caso do último Governo de José Sócrates, o pior "não foi tanto os problemas criados nos últimos meses, foi a herança que se ficou depois para o futuro".

"Com a experiência que tenho há uma coisa que me espanta: que não seja possível o país ter estabilidade estratégica, estamos a falar muito de estabilidade como se fosse uma coisa de meses, a estabilidade tática, acordo entre os partidos para haver alguma convergência sobre o que se vai fazer nestes meses", referiu, sustentando que todos estão de acordo sobre o que é preciso, como mais emprego e melhores salários, mas continuam a existir discordâncias "sobre as causas que permitem chegar a esses efeitos".

Questionado se defende, então, a realização de eleições, o economista disse que apenas não o faz "porque não é possível".

"É pena que tenhamos uma Constituição que é feita para conservar o passado e não para construir o futuro", disse.


O Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, está hoje a ouvir economistas, na sequência da aprovação a 10 de novembro de uma moção de rejeição do programa do Governo por todos os partidos da oposição, derrubando assim o executivo de coligação PSD/CDS-PP, liderado por Pedro Passos Coelho.

Durante a manhã, além de João Salgueiro, foram recebidos pelo chefe de Estado, Vítor Bento, Daniel Bessa e Luís Campos e Cunha.

À tarde, pelas 15:00, o chefe de Estado irá ouvir o antigo ministro das Finanças Teixeira dos Santos, seguindo-se às 15:45 o conselheiro de Estado Bagão Felix e, às 16:30, o ex-ministro da Economia 16:30.

Para as 17:15 está marcada o último encontro, com o Governador do Banco de Portugal, Carlos Costa.

Na sexta-feira, o Presidente da República irá ouvir os partidos com assento parlamentar.