O presidente executivo da RioForte, holding não financeira do Grupo Espírito Santo, assumiu esse cargo para abraçar um projeto «interessante e viável», mas a «pressão» do acionista ESI colocou um travão a esse objetivo.

Na comissão de inquérito parlamentar, José Rodrigues Pena, que foi ouvido durante cinco horas e meia, explicou que o que lhe propuseram foi «aumentar profissionalização» dessa área de atividades não ligadas à banca e «construir carteira de negócios sustentavelmente rentável». Mas, afinal, estava tudo condenado desde o início, percebeu depois.

O resumo da audição em 13 pontos:

1 - Problema que originou o colapso do GES e que levou, por arrasto, o BES, foi de governação. «Estou hoje convicto que o colapso do grupo deriva de práticas de gestão deficientes e de uma situação financeira grave que se prolongava há anos». Ricardo Salgado teve «claramente» o seu «cunho» em decisões importantes. «Era o líder claro do grupo»

2 - Ou seja, só consegue concluir que «a RioForte estava infelizmente condenada desde o início, ou pelo arrastamento da falência da sua acionista ESI ou pelo propósito inicial que afinal não existia»

3 - Apesar de tudo, manifestou «orgulho no trabalho desenvolvido» pela sua administração e diz que tentou, nos últimos meses, «uma solução que protegesse os credores» e relacionados

4 - Admitiu que o  programa de reestruturação da RioForte continha «riscos importantes», mas «a gravidade da situação» justificou corrê-los

5 - Venda da ESFG à RioForte por parte da ESI «não recebeu qualquer reparo por parte do BdP». Administração da RioForte mostraram reservas, mas acionistas da ESI, que mandavam, já tinham dado aval

6 - Não teve «qualquer interação» no investimento 900 milhões de euros da PT na RioForte.  Operação foi realizada pela direção financeira do BES, sob a tutela de Amílcar Morais Pires. Da outra parte, endividamento foi assumido sob solicitação da ESI. Quem intermediou a operação terá sido, segundo explicou, Manuel Fernando Espírito Santo, que era o presidente do conselho de administração da ESI

7 -  Lembrou que a PT um «investidor qualificado» e ninguém a obrigou a aplicar 900 milhões na RioForte. Fê-lo «com plena consciência» e de forma «instruída». A empresa teve, de resto, de se endividar para emprestar dinheiro à RioForte, segundo o relatório da consultora PriceWaterHouseCoopers sobre o dito empréstimo.

8 - Pensou demitir-se, mas ficou para preservar os postos de trabalho de quem trabalhava com ele e pela «convicção» de que os problemas de dívida da ESI estivessem resolvidos com a aquisição da ESFG pela RioForte

9- Admitiu que essa venda foi financiada com emissão de dívida vendida nos balcões do BES

10 - RioForte foi foi «fortemente pressionada» para comprar mais dívida à ESI, sobretudo a partir de abril de 2014. Impôs condições para fazê-lo, como o aumento de capital, mas a ESI «não cumpriu»

11 - Recusou que uma empresa falida estivesse a emprestar dinheiro a outra empresa falida. «A RioForte não estava falida naquele momento. A ESI estava efetivamente numa situação muito difícil», mas o financiamento foi feito na expectativa de aumento de capital

12 - Houve decisões que lhe escaparam: «Decisões ao nível do grupo e do acionista, que afetaram a RioForte, sem dúvida que sim». Gostava de ter tido um «maior nível de informação» na altura apropriada, e não a posteriori

13 - Admitiu sentir-se «muito frustrado» com o que se passou. «A palavra 'enganado' pode depreender que alguém enganou alguém. Essa é uma conclusão que espero vir a tirar»

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