O ex-presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet disse esta terça-feira, em Estrasburgo, que há muito tempo que alertava para a necessidade do controlo dos défices e para os desequilíbrios competitivos, numa audição sobre os programas da troika.

Perante os eurodeputados da comissão de Assuntos Económicos e Monetários do Parlamento Europeu, e respondendo a uma questão de Marisa Matias (BE), Trichet salientou que «desde 2005 que avisava para um problema enorme de desequilíbrios».

«Devíamos ter tentado evitar as divergências, mas era muito complicado», sublinhou, lembrando que foi já «duramente criticado, nomeadamente por deputados europeus, pelas intervenções que decidi fazer».

O ex-presidente do BCE sublinhou ainda, esclarecendo dúvidas colocadas por Elisa Ferreira (PS), ter alertado o Conselho Europeu que, na sua opinião, o envolvimento do setor privado no programa da Grécia «era um grande erro».

Sobre os desequilíbrios entre os países do Norte e do Sul, com, segundo a deputada socialista «excessivas transferências de créditos», Trichet salientou que perante a diferença em termos de competitividade, «os mercados e investidores deixaram de confiar e caímos numa enorme crise».

Em relação a Portugal e à Grécia, se os programas de estabilidade e crescimento tivessem sido cumpridos e respeitados, «muitos problemas teriam sido evitados», salientou, em resposta a uma questão de Diogo Feio (CDS/PP).

Na sua audição, Trichet lembrou que o BCE comprou dívida espanhola e italiana em agosto de 2011, «o que se provou ser uma decisão sensata e que deu credibilidade».

«Não governámos corretamente a zona euro e não acompanhámos da melhor maneira os indicadores económicos», reconheceu Trichet, que a Grécia foi um problema sistémico, que contagiou outros países, nomeadamente Portugal e Chipre.

«Grécia foi o primeiro país a entrar em dificuldades, era o mais vulnerável, com um défice elevado e com falta de competitividade, mas o problema foi sistémico», salientou.

Trichet respondeu hoje, no PE, a perguntas dos eurodeputados no âmbito da avaliação dos programas de assistência da troika.

O inquérito decorre do exercício, pelo PE, do «dever de escrutínio democrático, de legitimar qualquer decisão tomada a nível europeu», disse o deputado austríaco Othmar Karas, que presidiu à reunião e é um dos relatores do relatório de avaliação, que é apresentado - sem votação - na quinta-feira.