O ex-presidente do Banco Central Europeu Jean-Claude Trichet afirmou hoje em Bruxelas que respeita a opção de Portugal por uma saída limpa do programa de resgate, considerando-a uma «decisão do Governo com base na informação» macroeconómica.

Falando em Bruxelas numa sessão de esclarecimento sobre as eleições europeias, Trichet insistiu na soberania do sistema democrático de cada país da União para justificar a decisão do Governo português: «Foi um juízo do Governo com base na informação que possui e com base no nível de confiança» dos mercados.

Em Portugal, houve um «ajustamento difícil, mas necessário», afirmou Jean-Claude Trichet, que fez um balanço positivo dos «esforços e reformas» no país, mas não quis qualificar a opção da saída do programa de ajustamento.

A decisão final do processo de saída é um «juízo que eu respeito», sublinhou o ex-dirigente da instituição bancária, que considerou a atual crise um «momento decisivo» para a construção europeia.

«Aqui estamos depois da pior crise desde a II Guerra Mundial, que poderia ter sido a pior desde a I Guerra Mundial», mas a resposta das organizações europeias mostrou a «resiliência da Europa e da União Europeia [UE]».

«Tivemos a confirmação em Portugal, em Espanha, na Irlanda e até na Grécia» dessa «resiliência europeia».

Há três anos, existia «um sentimento de que a UE iria perder a sua moeda» e que «se iria desintegrar», recordou Trichet.

Mas, pelo contrário, o «euro, como moeda, tem sido constantemente credível durante toda a crise», conseguindo, durante esse período, manter capacidade de atração de países europeus para a eurozona.

«As 15 democracias decidiram permanecer no euro. No meio da crise, três outros entraram»: Letónia, Estónia e Eslováquia, recordou.

Para o futuro, Trichet espera que o «Parlamento europeu venha a ter um papel cada vez mais importante».

«Temos de dar mais poder e responsabilidade ao Parlamento Europeu. A legitimidade democrática das instituições baseia-se no Parlamento», explicou o ex-presidente do BCE, que alerta para a necessidade de regras claras do funcionamento das instituições, dando como exemplo o Programa de Estabilidade e Crescimento.

«A experiência demonstrou que o desrespeito do pacto teve consequências», recordou, salientando que a crise da dívida foi acentuada porque a Europa não possuía uma união bancária que harmonizasse as regras de funcionamento do setor, na sua relação com o mercado e com os governos nacionais.

Havia um «círculo vicioso» e um «círculo virtuoso», disse Trichet, embora salientando que o PEC «foi respeitado em muitos países», que «foram conscientes e prudentes».

Para os restantes, o «ajustamento [orçamental] foi necessário nalgum momento», acrescentou ainda.