Ainda estávamos no final de fevereiro de 2014, a cinco meses do colapso, quando a troika avisou o Banco Espírito Santo de que o banco precisava mesmo de aumentar o capital, porque o resto das medidas não chegavam. Deu disso conta a ex-diretora do departamento financeiro, de mercados e estudos do BES, Isabel Almeida, esta terça-feira, na comissão de inquérito sobre a derrocada do grupo e do banco:

«Participei numa reunião com a troika a 24 de fevereiro de 2014. Saímos de lá com um recado muito forte: o banco deveria preparar-se para um aumento de capital, porque não chegariam as medidas que tínhamos proposto, desde a garantia que tinha sido apresentada, à venda de ativos, não era suficiente»


A ex-responsável do BES respondia ao deputado do PCP, Miguel Tiago, mas antes já tinha explicado aos deputados que foi a «insistência do Banco de Portugal e da troika» que levou ao aumento de capital em junho.

Isabel Almeida garantiu que a sua equipa não tinha «um décimo» da informação que os reguladores, os auditores e o BES tinham sobre a situação do banco na altura da operação.

«O nível de investigação e de análises a que iríamos estar sujeitos não eram compatíveis com as fragilidades que estávamos a atravessar», lamentou.
 

«Sabia que ia ser muito difícil, nunca imaginaria ter de fazer um prospeto naquelas circunstâncias. Com uma mediatização imensa, em que a imprensa sabia mais do que nós próprios. Com fatores de risco, que desconhecíamos, relacionados com a reputação dos administradores..»


Ou seja, admite, houve «ignorância» involuntária do departamento financeiro «sobre muitos temas que deveriam ter aconselhado à não execução deste aumento capital», que, no entanto, considerou «um sucesso».

«Perigo já na fronteira do BES»

Isabel Almeida percebeu que havia ««um problema muito sério, designadamente nas questões de governance», no final de junho. «As coisas agravaram-se de forma significativa, em termos de viabilidade e da possível falência de empresas como a ESI, a Rioforte, que foi uma surpresa, e depois a ESFG. Aconteceu de uma forma muito rápida», assinalou. 

No fim de semana de 11 de julho, nas reuniões com a Blackstone - para assessorar o banco na recapitalização com fundos privados, «era muito claro, para eles e para nós, que o perigo estava já na fronteira do BES». O efeito de contágio foi «muito forte».

«Ninguém teve noção do quão intrínseco era o risco reputacional. As pessoas confundiam o GES com o BES. Todos os problemas do GES marcaram de forma significativa o BES. Havia insatisfação, desconfiança relativamente ao BES por tudo o que se passava com o GES»


E, neste processo, «é óbvio que Angola também teve um papel a desempenhar». O endividamento era grande e os créditos concedidos pelo BES ao BESA, também.  «Se havia informação de que a garantia ia ser revogada, então não havia forma de haver outra solução, mesmo privada para o BES», que não a resolução que o dividiu em dois, sustentou.

Apesar do cargo de diretora de departamento financeiro, Isabel Almeida disse que sofreu na pele as consequências do descalabro, tal como os outros investidores: «Perdi tudo»

Na sua audição, a ex-responsável do BES fez várias revelações: que Ricardo Salgado e Morais Pires decidiram o investimento de 900 milhões de euros da PT na RioForte; e que  ambos recusaram explicar o esquema das obrigações à nova administração, na altura de Vítor Bento. 

Foi de forma explícita que   Isabel Almeida se demarcou do homem a quem reportava tudo, Morais Pires, com quem tinha apenas uma «relação profissional». Confessou, inclusive, ter sido   «surpreendida» com o facto de integrar a lista do ex-administrador financeiro do BES para integrar a nova administração que viria a suceder a Ricardo Salgado - e que o Banco de Portugal não aprovou.