A Irlanda termina este domingo o seu resgate externo, com uma almofada de 25 mil milhões de euros e com juros abaixo dos 3,5%, estando Portugal, ainda a seis meses do fim do seu programa, numa situação bastante diferente.

Dublin termina oficialmente o seu programa de resgate a 15 de dezembro e, segundo o instituto que gere a dívida pública irlandesa, o país tem financiamento assegurado até meados do primeiro trimestre de 2015, contando para isso com uma almofada financeira que ronda os 25 mil milhões de euros.

Já antes de pedirem ajuda, os irlandeses tinham por prática acumular uma almofada que permitissem ao Estado ter financiamento durante um ano, algo que não acontece em Portugal.

No Orçamento do Estado para 2014 (OE2014), o Governo estimava que as necessidades líquidas de financiamento do próximo ano fossem de 11,8 mil milhões de euros. Este valor foi reduzido recentemente, depois de o Governo ter feito uma operação de troca de obrigações que venciam em 2014 e 2015, tendo conseguido empurrar 2 477 milhões de euros que venciam em 2014 para 2016 e 2017.

Além disso, de acordo com o OE2014, o Governo vai buscar 1 060 milhões com certificados de aforro, 1.440 milhões de euros com certificados do tesouro e mais 10 500 milhões em bilhetes do tesouro.

O Governo conta ainda com o que falta receber do empréstimo da troika até ao final do programa (até outubro, tinham sido desembolsados 65.752 milhões do envelope estimado de 79,4 mil milhões, dos quais 12 mil milhões eram exclusivamente para banca).

Finalmente, o Governo conta também com o montante dos depósitos da administração central, que totalizavam 17,9 mil milhões no final do terceiro trimestre deste ano. Deste valor, apenas estão disponíveis 11,5 mil milhões, uma vez que a banca, depois de ter usado 5,6 mil milhões de euros, ainda pode usar 6,4 milhões do montante total que lhe estava reservado.

Além das necessidades de financiamento diferentes, também as taxas de juro da dívida de longo prazo são distintas entre Portugal e a Irlanda: na sexta-feira, os títulos a 10 anos portugueses estavam com uma taxa de juro de 6,054%, ao passo que os irlandeses estavam nos 3,473%.

Os economistas contactados pela Lusa consideraram que os casos de Portugal e da Irlanda têm origens diferentes: o problema dos irlandeses foi o endividamento do setor bancário, que obrigou o Estado a injetar capital na banca, ao passo que, em Portugal, o problema era o endividamento excessivo decorrente do baixo nível de crescimento e o desequilíbrio da conta corrente.

Filipe Garcia, da Informação de Mercados Financeiros (IMF), destacou que «a Irlanda está a crescer desde 2011 e Portugal não» e que «a Irlanda é muito mais agradável para os investidores estrangeiros do que Portugal», considerando que «as duas situações praticamente não se comparam».

Já o diretor de investimentos do banco Carregosa, João Pereira Leite, disse que o modelo económico irlandês é «muito diferente» do português, mas considerou que há aspetos em que os dois países têm situações semelhantes.

«A Irlanda também tem um rácio dívida/PIB nos 120%. Em 2014, espera-se que tenha um saldo primário negativo e Portugal já vai ter um saldo primário positivo. A Irlanda está a crescer e tem um modelo económico muito baseado no consumo privado. Portugal já deverá estar a crescer em 2014», disse o economista.

João Pereira Leite entende que «a questão essencial é saber se Portugal vai conseguir captar a confiança dos investidores, ter o défice que está previsto ter e ter o PIB a crescer», além de garantir taxas de juro mais baixas, já que «uma taxa em torno dos 6% para a dívida a 10 anos ainda é proibitiva».