O Presidente da República alertou esta sexta-feira para a «forma muito negativa» como os investidores estrangeiros reagem quando ouvem falar em reestruturação da dívida, porque a ligam a «perdão» e «assustam-se» em relação a possíveis investimentos no país.

«Melhor cautelar que podíamos ter seria um acordo entre partidos»

Questionado como está a acompanhar o debate que tem ocorrido nas últimas semanas a propósito da reestruturação da dívida, o chefe de Estado, Aníbal Cavaco Silva lembrou que já abordou a questão na mensagem de Ano Novo de 2013, acrescentando apenas que quando se os investidores estrangeiros ouvem falar em reestruturação da dívida «reagem de forma muito negativa».

«Sobre essa matéria escrevi aquilo que penso no texto da mensagem de Ano Novo de 2013 e em relação a isso só posso acrescentar que, quando me tenho encontrado ao longo dos tempos com investidores estrangeiros, quando ouvem falar na palavra reestruturação reagem de forma muito negativa. Tenho constatado de facto isso, porque imediatamente ligam essa palavra a perdão de dívida e, portanto, assustam-se em relação a possíveis investimentos no país», disse o Presidente da República.

Na mensagem de Ano Novo de 2013, o chefe de Estado defendeu que «tentar negociar o perdão de parte da dívida do Estado não é uma solução que garanta um futuro melhor».

«Poderia criar uma ilusão momentânea, mas, no final, estaríamos numa situação dramática, pior do que aquela em que nos encontramos. Ninguém de bom senso pode desejar essa situação para o nosso país. Por isso, temos de cumprir as obrigações internacionais que assumimos», disse Cavaco Silva, há pouco mais de um ano.

Questionado sobre o apoio dado por figuras internacionais ao chamado Manifesto dos 70 para a reestruturação da dívida, o Presidente da República escusou-se a comentar, argumentando que «isso é matéria para comentadores».

O chefe de Estado foi ainda interrogado sobre a sua decisão de exonerar dos cargos de consultores da Presidência da República o ex-ministro da Agricultura Sevinate Pinto e o antigo secretário de Estado Vítor Martins, mas recusou fazer comentários, alegando que «a gestão da casa civil do Presidente da República compete exclusivamente a ele e ao chefe da casa civil».

«Sobre essa matéria só quero dizer que o doutor Vítor Martins e o doutor Sevinate Pinto colaboraram comigo sempre com grande lealdade, com grande competência e com grande dignidade, só posso dirigir uma palavra de grande apreço a essas duas pessoas que eu conheço há muito tempo e que colaboraram de forma extraordinária comigo ao longo de muito tempo», declarou.

Sevinate Pinto e Vítor Martins tinham assinado o «manifesto dos 70», que defende a reestruturação da dívida portuguesa.

O manifesto divulgado na semana passada, subscrito por 74 personalidades, considera que a dívida pública de Portugal é insustentável e que não permite ao país crescer, defendendo uma reestruturação que deve ocorrer no quadro europeu.