O ex-secretário geral da CGTP Carvalho da Silva considera que Portugal vai continuar com as políticas de austeridade impostas pela troika, após o programa de assistência financeira, com consequências negativas para a democracia e para a soberania do país.

«Objetiva e efetivamente não vamos sair das políticas de austeridade da troika. Vamos continuar entroikados, porque a austeridade que nos foi imposta amputa a democracia e a soberania do país», disse Manuel Carvalho da Silva em entrevista à agência Lusa.

Na opinião do sociólogo, o controlo dos credores (Fundo Monetário Internacional, Comissão Europeia e Banco Central Europeu) vai continuar, independentemente da opção que for tomada para sair do Programa de Assistência Financeira de três anos.

«Vão continuar a mandar e a impor. O que está pré-anunciado, em certos aspetos, até é o aprofundamento desta desestruturação», disse, referindo o prosseguimento da flexibilização do mercado de trabalho e da destruição da contratação coletiva.

Para Carvalho da Silva, a chamada saída limpa do programa da troika «está ser usada com uma carga positiva, apesar de a palavra nunca ter sido usada para fins tão sujos».

«O que se chama saída limpa surge na decorrência da imposição da troika, não traz nada de significativo, pois o país continua cada vez mais desigual e injusto», afirmou o académico.

A destruição do aparelho produtivo, o «brutal desemprego», a transferência do rendimento para o capital são algumas das heranças do programa de assistência financeira apontadas como negativas por Carvalho da Silva.

O ex-sindicalista referiu, como exemplo, as alterações introduzidas no Código do Trabalho em 2012, que renderam mais de dois mil milhões de euros por ano ao capital.

Salientou ainda a perda de coesão do país, com o despovoamento e envelhecimento do interior, devido ao encerramento de serviços públicos para diminuir gastos.

«A redução de custos está a dificultar as condições de acesso das populações aos serviços públicos de tal modo que a vida se torna impossível no interior do país», considerou o académico, referindo como exemplo que no ano passado apenas 400 jovens terminaram o ensino secundário no distrito de Bragança.

Carvalho da Silva lembrou ainda a onda de emigração da juventude, que não vislumbra uma hipótese de regresso.

«Porque o país não está a gerar desenvolvimento. Assistimos a um retrocesso brutal relativamente ao percurso de cidadania que fizemos e foi instalada uma política de caridadezinha, ao mesmo tempo que se eliminam direitos sociais e se colocam as pessoas na pobreza», justificou.

«Temos cidadãos cada vez mais aflitos e solitários e não são apenas os mais velhos, são também os jovens», afirmou, acrescentando que estes são apenas alguns dos traços deixados pela intervenção da troika.

O coordenador do Centro de Estudos Sociais (CES) de Lisboa lamentou que destruturação da economia e a desarticulação do Estado Social marquem o cenário em que se comemoram os 40 anos da revolução de 25 de Abril.

Segundo Carvalho da Silva os interesses nacionais deixaram de ser tidos em conta, sendo ultrapassados pelos «interesses dos nossos credores».

«Assim não há saída. O êxito da gestão orçamental corresponde ao aumento do sofrimento da população», disse, considerando que se está a viver «uma aberração do ponto de vista humano», dando mais importância aos mercados do que às pessoas.

Para o ex-líder da Intersindical, «a democracia está profundamente amputada» porque tudo o que foi conseguido ao longo dos últimos 40 anos com o objetivo de melhorar as condições de vida dos portugueses está a ser destruído, nomeadamente o Estado Social, o desenvolvimento do país, a consolidação do poder local.