O economista António Nogueira Leite disse este domingo que Portugal «optou e bem» por uma saída limpa face ao programa cautelar, mas afirmou temer que a falta de «um escrutínio muito forte» ponha em causa o esforço realizado.

«Tenho medo de que sem um escrutínio muito forte nós possamos, em meia dúzia de meses, pôr a perder tudo aquilo que fizemos em três anos com tanto esforço», disse Nogueira Leite, em declarações à Lusa.

De acordo com o economista, este risco não advém daquele que tem sido o caminho do Governo, até porque «o primeiro-ministro tem mostrado claro que percebeu que não haverá grande margem de manobra», mas sim do facto de «a grande maioria da opinião, pelo menos publicada, ir no sentido de que muito do ajustamento» que Portugal tem feito «é escusado».

«As pessoas têm estado a prometer à população crescimento sem austeridade, sem dificuldade e sem esforço e, portanto, voltamos ao discurso do final dos anos 90. Em Portugal, há um discurso totalmente desfasado da realidade que nos enfrenta e isso é muito perigoso, porque leva a um acrescer de ilusões, que depois não são materializáveis e têm consequências sociais e políticas muito perigosas», avisou.

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O economista e também antigo secretário de Estado do Tesouro do Governo de António Guterres teme que Portugal volte a uma situação em que os erros cometidos no passado se possam repetir. Nogueira Leite adverte que se isso acontecer as condições para a resolução dos problemas «vão ser muito mais duras e muito mais onerosas» do que as que o país enfrentou e foram «tão difíceis» nos últimos três anos.

«Quando oiço a opinião pública que comenta, seja de direita, nomeadamente do PSD, em que antigos líderes se posicionam à esquerda do Partido Socialista, em matéria de finanças públicas (¿), seja de esquerda, verificamos que as pessoas continuam a fazer um discurso como se nada se tivesse passado neste país», disse.

Nogueira Leite afirmou que já se previa a saída limpa. O economista argumentou que o país passou as 12 avaliações, que os mercados têm reagido bem à evolução da situação em Portugal e tendo em conta que alguns parceiros se mostraram disponíveis para proporcionar uma escolha entre a opção tomada e a forma mais suave do cautelar.