O ex-ministro das Finanças José Silva Lopes considerou que Portugal desenvolveu-se e convergiu com a Europa até 2000, mas de então para cá «tem sido uma desgraça».

Em entrevista à Lusa a propósito dos 40 anos do 25 de Abril, Silva Lopes, economista, 81 anos, membro dos quatro governos formados logo após a revolução e antigo governador do Banco de Portugal, falou do desenvolvimento do país nas últimas décadas.

«O país desenvolveu-se pelo menos até 2000. O PIB (produto interno bruto) per capita duplicou. Os portugueses tinham um PIB per capita em 1973 que era o equivalente a 58% do PIB da média dos países europeus e em 2000 estamos em 70%», afirmou.

«Progredimos mais do que os outros, convergimos para os níveis europeus», acrescentou, salientando que «Portugal teve um crescimento que foi dos melhores da Europa, neste período, apesar das fragilidades».

Mas desde 2000 para cá, «infelizmente tem sido uma desgraça. O PIB per capita já hoje é 4% mais baixo do que era em 2000 (...). Agora estamos a ficar para trás», apontou.

Silva Lopes destacou também as «mudanças radicais» verificadas na sociedade portuguesa após o 25 de Abril, em áreas como a mortalidade infantil e a educação, por exemplo.

«Temos setores hoje bastante mais eficientes do que naquela altura. Agora não fizemos o suficiente», afirmou o ex-ministro das Finanças, acrescentando que Portugal não soube ganhar competitividade na indústria.

«Quando tivemos de deixar de assentar a nossa produção nos têxteis, naquelas indústrias de mão-de-obra barata em que os chineses produzem mais barato do que nós, não soubemos trepar para indústrias mais sofisticadas», apontou.

Para o antigo governador do banco central, os entraves ao desenvolvimento do país acentuados na última década, começaram com o endividamento «antes da entrada na zona euro, talvez em 1995».

Nessa altura, os mercados perceberam que Portugal ia ser membro da zona euro e começaram a baixar as taxas de juro.

«Em vez de aproveitar isto com parcimónia e para investimentos, começámos num despesismo louco, nos projetos megalómanos», criticou, indicando que esse endividamento não foi só do Estado, mas também das empresas e das famílias.

Portugal «adaptou-se mal à zona euro», frisou, mostrando-se pessimista quanto ao futuro do país.

«Depois destes sacrifícios todos, não conseguimos que a dívida começasse a baixar e não vamos conseguir enquanto não houver crescimento económico. Só saímos (da atual situação) com crescimento económico e não vejo como. Toda a gente diz isso, a começar pelo Presidente da República (...), mas ninguém diz como é que se faz», afirmou.

«Para estes tipos do Governo, é preciso liberalizar tudo, fazer com que as empresas não paguem impostos, com que os ricos não paguem dividendos. A agenda deles é outra, não é o crescimento, é favorecer a rapaziada de que eles gostam», considerou, vendo o crescimento registado nos últimos semestres como «anémico».