O setor bancário deverá regressar aos lucros em 2014, depois de três anos 'horribilis' de elevados prejuízos, acreditam os analistas contactados pela Lusa, apesar dos desafios em termos de capital e de supervisão que os bancos terão de enfrentar.

«O ano de 2013 vai acabar com tendências positivas, sobretudo no que diz respeito a receitas. Em 2014, os bancos têm grandes hipóteses de regressar aos lucros», disse à Lusa Albino Oliveira, da corretora Fincor, numa posição em que alinhou outro analista de banca que preferiu não ser identificado.

Para estes especialistas, a contribuir para os melhores resultados dos bancos em 2014 estará a recuperação da margem financeira (que vale mais de metade das recitas dos bancos), com alguma retoma da concessão de crédito e a estabilização dos juros dos depósitos, e o abrandamento do crédito malparado, acompanhando a melhoria da economia.

Também o corte de custos que os bancos têm feito (sobretudo com o pessoal) e o aumento das receitas geradas pelas comissões ajudará aos resultados positivos depois dos prejuízos de milhares de milhões de euros acumulados entre 2011 e 2013.

Para Steven Santos, gestor de contas da corretora 'online' XTB, os principais bancos portugueses cotados em bolsa podem ser divididos em dois grupos. De um lado, BPI e o BES deverão ter trimestres favoráveis em 2014, com o BES a regressar aos lucros e o BPI a melhorá-los «apesar da elevada exposição à economia nacional», enquanto BCP e Banif «continuarão a sentir dificuldades».

Para Albino Oliveira, o BCP deverá conseguir o «'breakeven' [ponto de equilíbrio] operacional na atividade doméstico em meados» do próximo ano, pelo que considera que «por aí passará a capacidade do banco de apresentar lucros».

Já o Banif deixa os analistas mais na incerteza, pois ainda não é conhecida a forma detalhada como fará a sua reestruturação e as condições que terá para ir pagando ao Estado os 1.100 milhões de euros injetados na instituição, onde o Estado é desde janeiro deste ano acionista maioritário. Unânimes são todos os analistas ao dizerem que o banco irá continuar a reforçar provisões e a apresentar prejuízos.

Além do regresso aos lucros do setor como um todo, o próximo ano será de adaptação dos bancos ao novo quadro regulatório, com a entrada em vigor do acordo de Basileia III (que impõe, por exemplo, novas medidas de contabilizar rácios de capital), assim como do Banco Central Europeu enquanto supervisor único europeu.

No entanto, antes de entrar em vigor esta 'perna' da União Bancária, os bancos europeus serão ainda submetidos a uma bateria de exames pelo BCE, não se sabendo ainda a metodologia que será usada nos 'stress tests' nem como será avaliada a exposição à dívida soberana. Ainda assim, os analistas não contam com o 'chumbo' das instituições portuguesas analistas: Caixa Geral de Depósitos, BCP, BPI e BES.

«Há ainda o risco latente de os bancos terem de fazer novas operações de aumento de capital em 2014. Embora não seja certo, é possível e provável, com o Espírito Santo à cabeça», disse outro analista contactado pela Lusa, que disse que estes aumentos de capital deverão vir de investidores privados, sem qualquer injeção de dinheiro pelo Estado.

Quanto ao financiamento dos bancos, os analistas consideram que em 2014 o BCE vai continuar a ser a principal fonte de financiamento da banca, já que ainda não é possível às instituições recorreram aos mercados internacionais para se financiarem de forma consistente.

2014 será também ano em que o BCP deve começar a devolver ao Estado parte dos 3.000 milhões de euros injetados no banco em junho de 2012 para reforçar capital. Já o BPI pode mesmo terminar de reembolsar o Estado no próximo ano dos 1.500 milhões de euros emprestados, tendo em conta que devolver rapidamente o capital público é umas das prioridades definidas pela gestão do banco.