Os economistas do JP Morgan defendem que a crise política em Portugal demonstra «a falta de mandato forte» para cumprir o programa de assistência e que a realização de eleições é o pior cenário para a Alemanha.

«Independentemente do que acontecer, esperamos que Portugal procure a renegociação dos termos do programa atual. A discórdia política dos últimos dias evidenciou a falta de mandato forte para cumprir o programa tal como ele é atualmente», defendem os economistas do JP Morgan, alertando que «isto vai ser desafiante».

Num relatório especial hoje divulgado com o título «Renegociar Portugal: opções e riscos», os técnicos do JP Morgan reconhecem que Portugal enfrenta uma série de desafios difíceis nos próximos dias e semanas, com a possibilidade de as perturbações políticas se prolongaram além do horizonte da próxima revisão da 'troika' [Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia] que começa a 15 de julho».

Para o JP Morgan, há três cenários possíveis: a estabilização do Governo atual, a formação de um novo Governo com o mesmo parlamento e a realização de eleições legislativas, sendo que, «no presente, a primeira opção parece a mais provável», considerando a instituição que há 60% de hipóteses de este cenário se concretizar.

Quanto ao cenário da convocação de eleições em setembro, a que o JP Morgan atribui uma probabilidade de apenas 20%, «isso iria complicar os desenvolvimentos em relação à campanha alemã e iria colocar dilemas à chanceler Merkel».

Considerando que a realização de eleições é «provavelmente o cenário que implica mais danos», os peritos do JP Morgan referem que o escrutínio seria pouco antes das eleições alemãs, o que iria criar riscos sérios de que as duas campanhas interagissem de uma forma prejudicial.

Por um lado, Merkel seria forçada a renovar as preocupações com os países periféricos e, por outro, os políticos portugueses teriam a tentação de fazer afirmações contra a austeridade e contra a Alemanha, argumenta o relatório.

Considerando que há margem de manobra no campo orçamental, os técnicos indicam que «está por saber se há vontade entre os parceiros de Portugal, sobretudo a Alemanha e o FMI, para dar mais apoio (apesar de algum alívio fazer sentido, o contexto eleitoral na Alemanha complica significativamente este assunto)».

De acordo com as estimativas da instituição, as opções de Portugal passam por alguma renegociação do ritmo do ajustamento orçamental, a reestruturação dos empréstimos oficiais, o apoio do mercado secundário e um novo programa de resgate.

O JP Morgan considera que o mais provável é que Portugal precise de um segundo programa, uma vez que o país tem de emitir cerca de 15 mil milhões de euros no mercado primário nos próximos 4 anos, uma situação que só considera possível se a crise política em curso for resolvida muito rapidamente e sem alterações significativas aos termos do programa de assistência.

«Acreditamos que o retrocesso [económico] devido à crise [política] portuguesa pode ser contido desde que os maiores partidos consigam formar um governo, com ou sem eleições e desde que o envolvimento do setor privado não seja uma opção. O que quer que aconteça, os acontecimentos mostraram as tensões existentes e o cansaço da austeridade em Portugal e podem ter feito danos de longo prazo no que se refere à imagem externa do país», alerta ainda o JP Morgan.

Paulo Portas apresentou a demissão do cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros na terça-feira, por discordar da decisão de Passos Coelho de nomear a antiga secretária de Estado do Tesouro, Maria Luís Albuquerque, para ministra das Finanças, depois de Vítor Gaspar se ter demitido desta função na segunda-feira.