A conceituada revista britânica «The Economist» não acredita que Portugal consiga sair do programa de resgate da troika e regressar aos mercados dentro do prazo previsto (2014). Num artigo publicado esta sexta-feira, a revista diz que a calma que atualmente impera na Zona Euro, não vai durar muito.

«A discórdia vai reaparecer depois das eleições (alemãs) à medida que se tornar claro que os programas de resgate da Europa não vão resolver-se harmoniosamente e que há mais grandes contas a caminho», escreve a revista.

«Dos três primeiros países resgatados (Grécia na primavera de 2010, Irlanda no final desse ano e Portugal em meados de 2011), só um deverá conseguir abandonar o programa de acordo com o planeado. Ajudada pela sua economia resistente, a Irlanda, cujo resgate ascendeu a 67,5 mil milhões de euros, parece pronta para sair no final deste ano», acrescenta.

Mas mesmo no caso da Irlanda, deverá ser «apenas uma saída parcial». É que, de acordo com a revista, apesar das conquistas, o país continua a apresentar alguns fatores de risco, como o elevado défice orçamental, de 7,5%, e a dívida de 150% do Produto Interno Bruto e por isso mesmo, «consciente das suas vulnerabilidades», quer que o seu regresso ao mercado seja «escudado» pelo plano de compra de dívida do Banco Central Europeu (BCE). Algo que só pode acontecer se a Irlanda pedir um programa cautelar junto do fundo de resgate da Zona Euro.

Ou seja, a Irlanda sairia de um programa e entraria noutro, ainda que com condições mais «leves». Esta «saída» da Irlanda deveria abrir caminho para que Portugal abandonasse também o seu programa de resgate, em meados de 2014. «Mas esta perspetiva está agora em dúvida, devido a uma recessão que minou o apoio ao Governo liderado por Pedro Passos Coelho», acrescenta a revista.

Portugal enfraquecido por crise política e com riscos na dívida

A «The Economist» diz mesmo que, «apesar de Portugal ter conseguido angariar alguns fundos nos mercados este ano, desde então sofreu uma aguda crise política, que enfraqueceu a sua capacidade de atingir um défice orçamental de 5,5% do PIB este ano».

«Castigadas pela dívida, as perspetivas de crescimento de Portugal no médio prazo são fracas. A dívida pública atingiu 127% do PIB e existe a possibilidade de aumentar ainda mais devido a fatores de risco como garantias, parcerias público-privadas, e empresas públicas. Tudo isto pode transformar-se em dívida: o Fundo Monetário Internacional estima que podem adicionar mais 15% ao peso da dívida em percentagem do PIB, levando-a acima dos 140%», refere.

A «The Economist» lembra que as taxas de juro da dívida portuguesa a 10 anos estão acima dos 6,5%, muito superiores aos menos de 4% das obrigações irlandesas. «Os mercados estão a sinalizar desconfiança que Portugal consiga evitar algum tipo de segundo resgate», conclui, lembrando que «esse foi o destino seguido pela Grécia no ano passado.

No caso grego, depois dos dois resgates, ainda deverá ser necessário um terceiro. O problema da Grécia é que a dívida continua muitíssimo elevada, devendo ascender a mais de 175% do PIB no final deste ano. «A esperança é que a recuperação económica a partir de 2014, juntamente com a continuação da consolidação orçamental consiga colocar a dívida numa trajetória descendente».

Mas, avisa a revista, a Grécia vai precisar de mais uma reestruturação da dívida para conseguir atingir os 124% até 2020. Um «alívio» que o FMI quer que sejam os parceiros europeus a conceder ao país.

O que podia ajudar a Grécia, sublinha, era atingir as metas traçadas em termos de receitas com as privatizações. «Mas a Grécia tem um terrível passado de minar as metas: o objetivo para este ano vai ser falhado por mil milhões de euros».

Por isso, a revista não vê outra solução que não um «perdão de dívida».