O antigo ministro das Finanças Silva Lopes advertiu esta terça-feira que a «saída limpa» de Portugal nas atuais circunstâncias pode ser «um desastre» e considerou «estúpida» e «irresponsável» a pressão para a descida de impostos, escreve a Lusa.

Silva Lopes defendeu estas posições nas Jornadas Parlamentares do PS, na Nazaré, numa intervenção politicamente incorreta perante deputados socialistas, já que também criticou frontalmente a dívida feita pelos governos de José Sócrates (sobretudo a partir de 2008), atacou o atual sistema de pensões e manifestou pouca esperança numa inversão ao nível do combate aos interesses, mesmo com um executivo PS.

«Fala-se muito na saída limpa - e vamos ter uma saída limpa porque não temos outro remédio. Vamos continuar a pagar taxas dois pontos percentuais acima da Irlanda, na ordem dos cinco por cento a dez anos. Portanto, isto vai ser um desastre», disse.

Numa nova nota pessimista sobre o futuro da economia portuguesa, o antigo ministro das Finanças sustentou que a dívida pública portuguesa apresenta projeções «medonhas», razão pela qual se poderá concluir pelo seu caráter não sustentável.

«Chegará o dia em que teremos de fazer a reestruturação da dívida, mas não é altura de levantar o problema. Se fosse político do PS, interiorizava este problema, mas não o proclamava ao público para não piorar ainda mais a situação nos mercados internacionais», alegou.

Mais em linha com os deputados socialistas, Silva Lopes concordou com a tese de que o país deverá fazer uma redução mais lenta do défice e manifestou-se contra uma nova descida dos impostos, considerando que se trata de uma ideia do PSD e do CDS «disparatada», sendo mesmo «perigosíssima» e de uma «irresponsabilidade total».

«Temos esta coisa absolutamente estúpida de encarar baixas de impostos. O PS vai ter aqui um bico de obra», afirmou, numa alusão à pressão que poderá ser exercida por PSD e CDS a favor da redução da carga fiscal.

«O PS tem de explicar que um milhão de euros tirado em impostos é um milhão de euros que se tira em despesa. Já fiquei desiludido quando o PS aceitou baixar o IRC, porque essa redução só será boa para os indivíduos que têm ações em empresas grandes e sem concorrência. É falsa a ideia que a descida do IRC será boa para o crescimento económico», sustentou o economista.

Em contraponto, o antigo titular da pasta das Finanças mostrou-se favorável a políticas de apoio à economia seletivas e de discriminação positiva dirigidas ao setor de bens transacionáveis.

«O setor não transacionável faz o que lhe apetece. A EDP, por exemplo, sente-se no direito de aumentar os preços mesmo quando o consumo cai. Mas que raio de economia é esta», exclamou, antes de deixar a plateia de deputados socialistas gelada com o seguinte comentário:

«Uma coisa é a racionalidade económica e outra coisa são os grupos de interesse. Pessoalmente não sou nada otimista em relação aos interesses, nem mesmo com o PS no Governo», referiu.

Silva Lopes deixou uma nota de alarme quando preveniu que não ia falar no sistema bancário «porque já basta de desgraças» e revelou-se também extremamente duro sobre a qualidade do investimento público feito em Portugal nos últimos 20 anos.

«Considero que é preciso manter o estádio de Leiria intacto, mantê-lo tal como está, como um monumento à estupidez nacional», declarou, antes de defender uma reforma no sistema atual de pensões, classificando-o como insustentável.

«A maior parte das pensões não corresponde ao que cada um descontou. Basta cada um fazer as contas e verificará que já recebeu em reformas bastante mais do que descontou. Estou a falar contra os meus interesses», disse.