Apesar de distante, a crise chinesa pode ter vários efeitos em Portugal. E não são só as exportações, o investimento ou a inflação que podem sofrer algum impacto: algumas das maiores empresas portuguesas têm acionistas chineses e podem ser indiretamente afetadas.
 
Um dos fatores a ter em conta é a queda livre das bolsas de Xangai e Hong Kong nos últimos meses. Muitas empresas chinesas estão a perder valor rapidamente e podem enfrentar dificuldades, se esta espiral de desconfiança não parar em breve. A Haitong e a Fosun têm estado entre as mais castigadas.Para as participadas portuguesas, isto pode traduzir-se em maiores dificuldades de financiamento.
 

“Se as empresas portuguesas precisarem de financiamento, por exemplo, pode ser mais difícil aos acionistas chineses injetarem dinheiro e darem apoio financeiro”, explica Mafalda Oliveira Monteiro, especialista em Direito Bancário, Financeiro e de Mercado de Capitais.

 
Habituada a lidar com investidores chineses, esta advogada explica ainda que a China é uma das principais fontes de financiamento mundial. “O facto de existir capital chinês numa empresa nacional poderia facilitar o acesso dessa empresa a programas e linhas de financiamento chineses. Mas se o Governo chinês estiver numa fase de retração de investimento, esse acesso pode ser dificultado”.
 

“As próprias empresas chinesas podem ter dificuldades em financiar-se e terem a necessidade de apresentar ativos como garantias. não é de excluir a possibilidade de entregarem ativos situados em Portugal, nas empresas portuguesas”, acrescenta a advogada da sociedade Miranda Correia Amendoeira & Associados.


Mas Mafalda Oliveira Monteiro diz que a venda destas participações é um cenário menos provável. “As empresas portuguesas em causa são boas, sólidas, e são uma porta de entrada da China não só em Portugal mas para outros negócios, noutras partes do mundo”. Uma porta que os gigantes chineses não querem fechar.
 
Além disso, “os grupos chineses que nós estamos a ver investir em Portugal são sólidos, alguns deles até com ligações ao Governo chinês, não são investidores inexperientes, como os que negoceiam na bolsa chinesa”.

Os investidores chineses têm sido protagonistas em vários dos grandes negócios dos últimos tempos em Portugal. Por exemplo, a China Three Gorges detém mais de 21% da EDP, a maior empresa privada portuguesa; a State Grid detém 25% da REN; o grupo Fosun comprou 85% da Fidelidade e, através da seguradora, adquiriu 96% da Luz Saúde e 5% da REN; a Haitong comprou o BES Investimento e a Beijing Water adquiriu o negócio da Veolia em Portugal, no setor das águas.
 
No total, entre 2011 e 2014, os chineses fizeram compras de mais de 5.800 milhões de euros. Um valor que pode disparar rapidamente, já que é o grupo chinês Anbang quem está em negociações avançadas com o Banco de Portugal para comprar o Novo Banco.
 
O grupo chinês ofereceu mais de 3 mil milhões de euros pelo banco que ficou com os ativos saudáveis do antigo BES, e esperava-se que subisse a oferta nesta fase de negociações. O que pode já não acontecer.
 

“Com o financiamento mais difícil, estas empresas podem ver-se limitadas nas condições financeiras que estão a negociar com o Banco de Portugal”, esclarece a especialista.


A desvalorização do yuan, levada a cabo pelo Banco da China, também dificulta a vida ao grupo Anbang: a oferta pelo Novo Banco, feita em euros, ficou 8,5% mais cara em apenas um mês.