O primeiro-ministro da Grécia reiterou a vontade do Governo grego em implementar as reformas necessárias para resolver a crise do país helénico, numa conferência de imprensa após a primeira reunião bilateral entre Tsipras e Angela Merkel, esta segunda-feira, em Berlim, onde o chefe do executivo grego esteve lado a lado com a chanceler alemã.

Tsipras não desvendou, no entanto, que reformas deverão ser implementadas pelo país, prometidas ao Eurogrupo depois do acordo alcançado a 20 de fevereiro. Apenas deixou clara a prioridade no combate à corrupção e à evasão fiscal, garantindo que a Grécia vai respeitar os acordos de tratados europeus.

O chefe do Governo grego sublinhou que não foi a Berlim pedir dinheiro à Alemanha, mas discutir os pontos em que os dois executivos estão em concordância e em discordância, de modo a que seja possível encontrar soluções conjuntas que resolvam o impasse financeiro.

«Como podem imaginar, não vim a Berlim pedir à chanceler alemã para pagar os salários e as pensões do povo grego.»

Por sua vez, Angela Merkel demonstrou a vontade da Alemanha em resolver este impasse para além das «diferenças de opinião» entre os dois governos. 

«A Grécia tem de voltar a crescer economicamente e superar problemas como o seu elevado desemprego, sobretudo o desemprego jovem, para levar por diante as reformas com que está comprometida».


Merkel sublinhou a necessidade de haver um acordo sobre o programa de reformas para a Grécia, mas fez questão de destacar que representa apenas um dos 19 países que constituem a zona euro.

«Represento um dos 19 países da zona euro. As decisões sobre a liquidez na Grécia afetam todos os membros do Eurogrupo e serão adotadas após escutarmos as avaliações das três instituições envolvidas, de comum acordo.»

O líder do Syriza garantiu que o seu país respeitará os acordos de tratados europeus, mas «com determinadas prioridades», sublinhando a intenção de governar em favor da coesão social e de «ultrapassar os estereótipos».

«Os gregos não são preguiçosos e os alemães não são responsáveis por todos os males da Grécia. Devemos trabalhar arduamente para ultrapassar estes estereótipos.»


Estereótipos que Merkel também quer travar. «É preciso evitar todos os estereótipos», disse a chanceler.

Tsipras também aproveitou para condenar com veemência as caricaturas onde a chanceler e outros líderes alemães surgem como nazis, e apelou para que seja ultrapassado esse «passado obscuro» e evitado esse género de «provocações a ataques». 


O primeiro encontro bilateral entre os dois líderes surge num momento em que há informações de que Atenas tem dinheiro apenas para mais umas semanas.

Na semana passada, Tsipras escreveu mesmo uma carta a Merkel, avisando a homóloga que seria «impossível» pagar a dívida aos credores internacionais nas próximas semanas sem mais ajuda financeira. 

Nessa missiva, divulgada pelo «Financial Times» esta segunda-feira, Tsipras alertou que o governo de Atenas seria forçado a escolher entre pagar os empréstimos ao FMI ou continuar a financiar as prestações sociais.

«Dado que a Grécia não tem acesso aos mercados financeiros, e também devido ao facto de os reembolsos da dívida atingirem picos durante a primavera e o verão... É claro que as restrições do BCE, combinadas com o adiamento do pagamento da ajuda financeira fazem com que seja impossível a qualquer governo pagar a dívida», escreveu Tsipras.


No texto, Tsipras sublinhou que esta situação iria levar a uma maior deterioração na já deprimida economia grega, uma perspetiva que o primeiro-ministro grego não quer. 

Esta segunda-feira, a Comissão Europeia deixou um recado ao governo helénico, afirmando que não basta uma «forte vontade política» para negociar as reformas e resolver os problemas de liquidez da Grécia, mas que é preciso ir mais longe e passar a «ações e progressos». 

«Nesta fase, uma forte vontade política por si só não é suficiente, é preciso passar a ações e progressos», disse esta segunda-feira o porta-voz da Comissão Europeia, Margaritis Schinas, na conferência de imprensa diária, em Bruxelas. 

Sobre uma das questões que mais polémica tem gerado nos últimos dias, a reclamação de reparações de guerra à Alemanha por parte da Grécia, o Governo alemão voltou a insistir esta segunda-feira, através de um porta-voz do Ministro dos Negócios Estrangeiros, que esta é uma questão «encerrada» quer do ponto de vista político, quer no âmbito do quadro jurídico.

«As reparações de guerra estão encerradas sob o ponto de vista político e legal. Mas não ignoramos o assunto.»

Mas Tsipras aproveitou a conferência de imprensa para apelar à necessidade de iniciar um «diálogo» sobre esta matéria.

«Temos de superar em conjunto as sombras do passado.»


O líder do Syriza assegurou que as pretensões dos gregos não são prioritariamente de «tipo material», mas antes uma questão «moral e ética» e citou concretamente o crédito que a Grécia foi então forçada a conceder ao regime nazi e que nunca foi liquidado, justificados pelos «custos da ocupação».

Contudo, Tsipras separou a questão das reparações de guerra das atuais discussões sobre a dívida grega e os problemas de liquidez do seu país.

As afirmações do primeiro-ministro grego seguem-se à proposta formulada no domingo pelo chefe da diplomacia de Atenas, Nikos Kotzias, sobre a formação de um «comité de sábios» para analisar esta questão, uma iniciativa de imediato rejeitada por responsáveis alemães.