Multinacionais a operarem na Grécia escapam ao fisco graças à domiciliação em países europeus com fiscalidade que lhe é mais benéfica, denunciou quarta-feira a organização não-governamental holandesa SOMO em relatório, que também mencionou Portugal no documento.

«Uma análise das posições bilaterais de investimento da Grécia mostra que os Países Baixos, tal como o Luxemburgo e o Chipre, são utilizados como paraísos fiscais para as empresas a operar na Grécia», assegurou a ONG, que apresentou o relatório em Atenas.

O texto apoia-se sobre uma análise dos investimentos diretos no estrangeiro, os quais mostram que no caso da Grécia, mas também no da Itália, da Espanha e de Portugal, a designada otimização fiscal, através de outros Estados membros da União Europeia, «amplificou-se desde o início da crise em 2007, para evitar as subidas de imposto que pretendiam reduzir os défices públicos dos Estados».

Em relação aos Países Baixos, com um regime fiscalmente vantajoso para as holdings (sociedades de controlo de grupos de empresas), «cerca de 80% dos investimentos diretos» deste país dirigidos para a Grécia passam por simples «apartados postais», isto é, empresas sem atividade real, segundo a SOMO, que se baseou em dados do Fundo Monetário Internacional e da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico.

A SOMO exemplifica o argumento com uma sociedade canadiana de mineração, a Eldorado Gold, que dirige um projeto de exploração mineira, de extração de ouro, no norte, perto de Tessalónica.

Todas as filiais da companhia nos Países Baixos, «ligadas ao paraíso fiscal da Barbuda», não têm empregados, «exceto uma», apesar de terem ativos de dois mil milhões de euros.

As suas práticas fiscais permitiram-lhe não pagar 1,7 mil milhões de euros ao fisco grego em cinco anos, segundo o documento.

Esta informação deveria criar nos Estados envolvidos «um sentimento de urgência», mais a mais quando decidem e aplicam políticas de austeridade draconianas para procurar equilibrar as suas finanças públicas, comentou a ONG.
Ao apresentar o documento, uma das dirigentes da SOMO, Eva Joly, afirmou: «Chamar a isto hipocrisia é ser moderado. É altura de os cidadãos holandeses perceberem que o seu governo tem defendido, desde há décadas, este tipo de roubo à escala industrial».