A Comissão Europeia reiterou esta segunda-feira que recebeu uma queixa dos Governos de Portugal e Espanha relativamente a declarações do primeiro-ministro grego, e está em contacto com as partes, mas sublinhou que o importante é o cumprimento do acordo alcançado no Eurogrupo.

A polémica em torno da «perplexidade» em Lisboa e de Madrid pelas recentes declarações de Alexis Tsipras, que no passado sábado acusou os governos português e espanhol de terem tentado bloquear um compromisso no Eurogrupo sobre o prolongamento do programa de assistência à Grécia, dominou a conferência de imprensa diária da Comissão Europeia, que, todavia, insistiu que o seu papel «não é comentar comentários feitos por outros».

«O Eurogrupo, as instituições europeias e internacionais, e as autoridades gregas alcançaram um acordo muito claro na semana passada. Por isso, o que interessa agora, mais que quaisquer declarações públicas, é que a Grécia implemente as reformas com que se comprometeu de forma rápida e com determinação», declarou uma porta-voz, que durante aproximadamente 20 minutos respondeu a questões de correspondentes internacionais, em Bruxelas, relacionadas com o assunto.

Apesar de as numerosas questões sobre o cariz da queixa, os procedimentos seguidos e a posição da Comissão, a porta-voz Mina Andreeva limitou-se a referir, repetidamente, que a Comissão recebeu uma queixa, ainda que não tenha sido uma carta formal – «vivemos numa era digital, há muitos outros meios», comentou -, deu seguimento à mesma, como faz sempre que recebe uma comunicação, e está «em contacto próximo com todos os atores envolvidos».

«O nosso papel é ser mediador entre as diferentes partes e é o que temos feito. Construímos pontes e tentamos aproximar as partes», disse.

A porta-voz escusou-se a confirmar se o presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker, já falou com Tsipras na sequência do desagrado manifestado pelos governos de Pedro Passos Coelho e Mariano Rajoy, referindo apenas que «foram feitos vários contactos a vários níveis durante o fim-de-semana».

«Devemos focar-nos no que interessa, e o que é importante, mais que quaisquer declarações públicas, é o cumprimento das reformas com que [as autoridades gregas] se comprometeram e o respeito pelo acordo» alcançado no Eurogrupo, insistiu.

No domingo, fonte comunitária já indicara à Lusa que a Comissão estava a par do descontentamento dos Governos português e espanhol face às recentes declarações do primeiro-ministro grego, mas escusara-se a comentar o caso, até porque o seu papel é o de conciliador, e afirmara igualmente que «o que interessa é o acordo» alcançado no Eurogrupo.

Fonte do gabinete do primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, confirmou no domingo à Lusa que o Governo português manifestou a sua perplexidade perante «acusações infundadas» do primeiro-ministro grego através de canais diplomáticos, embora sem escrever qualquer carta de protesto.

No sábado, numa reunião do comité central do seu partido, Syriza, Tsipras afirmou que, no Eurogrupo, a Grécia se deparou «com um eixo de poderes, liderado pelos governos de Espanha e de Portugal que, por motivos políticos óbvios, tentou levar a Grécia para o abismo durante todas as negociações».

«O seu plano era e é desgastar-nos, derrubar o nosso Governo e levá-lo a uma rendição incondicional antes que o nosso trabalho comece a dar frutos e antes que o exemplo da Grécia afete outros países, principalmente antes das eleições em Espanha», previstas para o final deste ano, acrescentou, citado pela agência espanhola Europa Press.