A sócia da Ernst & Young em Portugal, Ana Salcedas, admitiu esta quarta-feira a forte influência de Horácio Roque, fundador do Banif, na condução dos destinos do banco, considerando que após a sua morte houve alterações naquela entidade.

"O comendador Horácio Roque tinha uma intervenção na gestão do banco relevante e a sua perda trouxe alterações", afirmou aquela responsável durante a audição na comissão parlamentar de inquérito ao Banif, sem fazer mais considerações.

Sobre o impacto das disputas familiares no Banif, Ana Salcedas também jogou à defesa: "Obviamente continuaram a ser acionistas do banco, apesar da diminuição da sua participação, e continuaram a ter envolvimento com o banco".

De resto, vários deputados manifestaram o descontentamento com a falta de informação dada pela responsável da Ernst & Young face às inúmeras perguntas que lhe iam sendo colocadas sobre o Banif.

Por diversas vezes, Ana Salcedas considerou as questões demasiado "genéricas", pedindo que o deputado que as tivesse lançado fosse mais específico. Mas, mesmo quando tal acontecia, em várias ocasiões as respostas não satisfaziam os grupos parlamentares.

Entre outras matérias abordadas, Ana Salcedas disse que a passagem de testemunho da Ernst & Young, o Revisor Oficial de Contas do Banif durante vários anos, para a PricewaterhouseCoopers (PwC) foi "normal" e que a Ernst & Young apenas analisou o plano de reestruturação do Banif de agosto de 2013.

Pequena dimensão do banco tornou mais difícil absorver impactos

A "partner" da Ernst & Young apontou para a pequena dimensão do Banif como fator-chave para a situação crítica em que caiu depois de enfrentar vários desafios conjunturais nos últimos anos.

"O Banif tinha uma dimensão diferente de outros bancos. Poderia ter maior dificuldade em absorver os impactos. Outros bancos também tiveram problemas, mas a questão da dimensão tem que ser tida em conta", afirmou Ana Salcedas.

Ana Salcedas tinha sido questionada sobre as razões que levaram o Banif a ficar numa situação de extrema fragilidade, motivando mesmo a intervenção pública na instituição, durante a audição na comissão parlamentar de inquérito ao Banif.

"A evolução do crédito vencido faz reduzir o encaixe com esses empréstimos. Há também uma redução das taxas indexantes, o que penaliza a margem dos bancos. E a situação do ponto de vista da liquidez que levou a taxas de remuneração de depósitos mais elevada e que também penalizavam a margem", afirmou.

Ana Salcedas admitiu "um incremento de imparidade, em particular a partir do ano de 2011", realçando que tal teve "um impacto na margem [financeira] significativo".

"No contexto dos resultados do banco, estes aspetos são significativos", assinalou.

Operações cruzadas com BES eram "analisadas” à luz da informação da altura

As operações cruzadas entre Banif e BES eram do conhecimento da Ernst & Young, que auditou durante vários anos as contas do Banif, mas foram analisadas segundo a informação que havia no momento sobre o BES, disse Ana Salcedas.

"A exposição do Banif ao Grupo Espírito Santo (GES) terá sido objeto de análise. Os relatórios eram debatidos consoante o seu conteúdo. O que sabemos hoje não sabíamos na altura", afirmou a associada da Ernst & Young durante a sua audição no parlamento.

"É normal que eu não saiba, mas é natural que quem fazia a auditoria às contas tivesse essa responsabilidade", lançou António Carlos Monteiro, deputado do CDS-PP, que integra a comissão de inquérito ao Banif, face às respostas evasivas de Ana Salcedas.

Em resposta, Ana Salcedas disse que "as análises eram feitas com as informações que tinham no momento".

As participações cruzadas entre o Banif e o BES serviam para dar financiamento às "holdings" familiares Rentipar (família Roque) e Grupo Espírito Santo (GES) sem ultrapassar os limites impostos pelo regulador.

Numa audição anterior nesta comissão, o antigo representante do Estado no Banif, António Varela, considerou que as operações de financiamento "casadas" entre o BES e o Banif tinham por objetivo financiar os seus acionistas sem ultrapassar os limites impostos pelo Banco de Portugal.

"A questão trata-se de contornar os limites de financiamento a acionistas dos bancos. Temos a existência de dois grupos muito idênticos. O Banif, controlado pela família Roque, e o BES, controlado pela família Espírito Santo", disse aquele responsável.

De acordo com António Varela, as operações de financiamento "eram feitas nas mesmas condições, nos mesmos termos e nas mesmas condições. Na prática, era como se o BES financiasse a família Roque e o Banif financiasse a família Espírito Santo".

Questionado sobre as razões que, no seu entender, levaram à existência destas operações cruzadas, António Varela foi taxativo: "Não se trata mais do que uma maneira de enganar o regulador".