A nova carta enviada aos tripulantes portugueses, a que a TVI teve acesso, é recebida quase com indiferença. Para os trabalhadores de bordo da Ryanair, trata-se de um "falso recuo" da companhia aérea e acreditam que os trabalhadores que fizeram greve nos dias 25 e 26 de julho vão ser prejudicados.

Na correspondência, enviada por uma responsável operacional a todos os tripulantes com base a Portugal, a Ryanair dá um passo atrás e tenta corrigir a polémica depois das ameaças feitas aos grevistas um dia antes.

 

Queremos clarificar que a participação na greve da semana passada não vai afetar de forma alguma as transferências ou promoções", Ryanair

Porém, um dia antes, as indicações eram opostas. Outra responsável operacional, a 31 de julho, escreveu aos tripulantes a dizer que "todas as ausências serão registadas e tidas em consideração [...] quando houver oportunidades de promoção ou transferências". As mesmas ameaças foram enviadas a trabalhadores que aderiram à greve em Itália, Espanha e Bélgica. É referido ainda que os trabalhadores "não terão ajudas de custo, pagamento de setores ou bónus mensal de produtividade".

 

"Bullying silencioso"

Os trabalhadores da Ryanair dizem que episódios como este não são novos e vivem um clima de intimidação permanente na empresa que classificam como "bullying silencioso". Além destas cartas, tiveram também de dizer, num questionário por escrito e por telefone se iriam ou não aderir à greve.

O conteúdo destas cartas enviadas posteriormente, a que a TVI teve acesso, viola não só a legislação laboral, como também a Constituição Portuguesa. A denúncia é feita pelo Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil. "As pessoas que fizeram greve não podem ter qualquer tipo de represálias por exercerem esse mesmo direito e a carta é bem explícita", refere Fernando Gandra, representante do sindicato.

As denúncias foram enviadas à Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) e remetidas para o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social. O ministério tutelado por Vieira da Silva não se pronuncia sobre o tema.

Fonte da ACT diz à TVI que está a ser analisada a informação complementar solicitada, "bem como o resultado de todo um conjunto de outras diligências realizadas para apuramento de todos os factos", desta greve e de outras.

A ACT acompanhou a greve na Ryanair nos passados dias 29 de março, 1 a 4 de abril e 25 e 26 de julho, tendo desenvolvido intervenções inspetivas nos três aeroportos do território continental: Lisboa, Porto e Faro, com vista a verificar a existência de alegadas irregularidades em matéria de substituição de trabalhadores grevistas."

Para já, a ACT diz que é prematuro avançar com resultados, uma vez que ainda estão a decorrer diligências.

Aquilo que o trabalhadores exigem é a aplicação da Lei portuguesa. Neste momento, a Ryanair, apesar de ter base em Portugal, rege-se pela Lei irlandesa. Isto faz com que os trabalhadores tenham um regime discriminatório. O Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil aponta diferenças como,por exemplo, em matéria de parentalidade ou de período de férias inferior a 22 dias úteis.

"Façam greve e depois vão ver"

As declarações de Michael O'Leary, CEO da Ryanair, aumentaram ainda mais a polémica por ter ameaçado os grevistas publicamente. "Se tivermos pessoas que querem fazer greve só por fazer, então que façam greve e depois vão ver os empregos a serem deslocados e as aeronaves a serem deslocadas", avisou O'Leary.

A companhia alega que as paragens em diversos países europeus tem levado a constrangimentos que prejudicam financeiramente a empresa e que se continuarem estará em cima da mesa a redução de frota e consequente despedimento de 300 trabalhadores - cerca de 100 pilotos e 200 comissários de bordo.

Mesmo com estes avisos do mais alto responsável da empresa, preparam-se novas greves na Suécia, Alemanha e Irlanda. A Ryanair lamenta que novos voos tenham de ser cancelados, afetando milhares de passageiros em plena época alta de verão, e diz mesmo, em comunicado, que é uma decisão "irresponsável".