O primeiro-ministro foi confrontado, durante o debate quinzenal no Parlamento, pelos partidos mais à esquerda, com a proposta do Syriza de realizar uma conferência europeia sobre a reestruturação da dívida. E Pedro Passos Coelho não podia ter sido mais claro a rejeitá-la.

«Tenho consciência da responsabilidade do meu cargo e das consequências das minhas afirmações contra os portugueses. Não estarei do lado de nenhuma conferência que venha a ser proposta para perdoar ou reestruturar a dívida à custa dos povos europeus».


Apesar de ter dado os «parabéns» à coordenadora nacional do Bloco de Esquerda pela vitória do «partido congénere» na Grécia, o primeiro-ministro reforçou que não subscreve as ideias do novo governo grego. Mesmo que a Irlanda tenha aceitado a realização da conferência europeia, Portugal não vai alinhar.

«Não creio que seja uma perspetiva entusiasmante para Portugal, Irlanda ou Espanha, que fizeram um esforço bem sucedido e conseguiram resolver os seus problemas. Esses países têm uma dívida grande, mas sustentável. Esses países não querem voltar a passar por esse processo».

Foi o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, o primeiro a trazer ao debate quinzenal a discussão da reestruturação da dívida, acusando o Governo de ser «obediente» com as «imposições» da troika. 

«A forma como reagiu às eleições na Grécia veio confirmar que o Governo está mais preocupado em ficar bem na fotografia dos grandes interesses económicos do que em defender os interesses do país».


Jerónimo não gostou de ouvir Passos Coelho chamar «conto de crianças» à ideia de reestruturar a dívida, que considera capaz de «libertar Portugal do garrote a que está sujeito», e acusou o primeiro-ministro de «estar mais do lado da senhora Merkel do que dos interesses nacionais».

O primeiro-ministro sublinhou então que a Grécia «foi o único país da União Europeia que renegociou a sua dívida» e que uma reestruturação neste momento significaria «não pagar aos aos povos europeus que emprestaram» dinheiro aos gregos, como Portugal.

«Não concordo que fosse uma vantagem para Portugal um tal processo. Espero bem que a Grécia consiga resolver os seus problemas, por isso é que a temos ajudado. Mas o respeito que devemos ao governo grego o governo grego deve aos outros países».


Mais tarde, foi a vez da coordenadora do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, acusar Passos Coelho de deixar o país «com a maior dívida pública da história da democracia» e defender a sua reestruturação.

«Os seus compromissos são com quem? Os países devem honrar os compromissos internos e externos. Se os compromissos estão a destruir as condições de vida de quem aqui vive, então a sua responsabilidade moral é renegociar».


A coordenadora bloquista exemplificou que, o atual comissário europeu, «com a dívida a 90% [do PIB] já dizia que ela era insustentável, agora com mais de 130% vem dizer que é sustentável». «Isso sim, parece um conto de crianças», referiu.

Catarina Martins destacou então que, com a vitória do Syriza na Grécia, «abre-se uma porta nova na Europa, uma nova página», e atacou o primeiro-ministro por, ao rejeitar uma conferência europeia sobre a renegociação da dívida, «estar do lado da especulação financeira e submeter o país a mais sofrimento em nome dos mercados».

«Espelho meu, espelho meu, há alguém mais syrizista do que eu?»

Sobre a questão grega, os deputados da maioria responderam com acusações aos partidos de esquerda, por se «acotovelarem nas televisões» para ver «quem é mais syrizista». «Espelho meu, espelho meu, há alguém mais syrizista do que eu?», questionou Luís Montenegro.

O líder parlamentar do PSD referiu que ser «syrizista» significa «constituir um governo que junta forças de extrema-esquerda com a extrema-direita», significa «acabar com austeridade, como que por magia» e «não fazer reformas». 

Já o líder parlamentar do CDS destacou, entre PS, PCP e BE, uma «corrida ao título» de «Eu sou o mais Syriza».

«Nós somos portugueses, estamos em Portugal, num debate no parlamento português e é de Portugal que queremos falar», destacou Nuno Magalhães.

Durante o debate quinzenal desta sexta-feira no Parlamento, Passos Coelho destacou os dados da execução orçamental, admitindo que «a austeridade está a ganhar menos relevância», mas avisando que ninguém poderá «aligeirar as preocupações com a consolidação» das contas públicas.
 
O primeiro-ministro foi acusado, pelo PS, de se sentir «em dificuldades» com as mudanças que estão a ocorrer na Europa. 

O momento mais «quente» do debate ocorreu quando se discutiam os cortes na Saúde. A discussão entre Passos Coelho e as deputadas do Bloco de Esquerda foi mediada por Assunção Esteves.