
A incerteza e indefinição que pairam sobre Atenas arrisca a ser uma nova, mais uma, tragédia grega no rescaldo destas eleições que não conseguiram eleger uma maioria e em que o consenso entre os partidos é uma hipótese muito remota. É mesmo «veneno» para a crise na Europa e deixa os mercados e os cidadãos mais nervosos e receosos, segundo o analista Janis Emmanouilidis, do grupo de reflexão European Policy Center.
«Ninguém consegue saber que espaço de manobra têm os partidos para negociar com a Europa. É como um jogo de poker. Mas todos têm de estar conscientes que, como num jogo de poker, se meterem todas as fichas a jogo, podem ficar sem elas», resumiu o especialista à agência Lusa.
Para o responsável greco-alemão deste think tank com base em Bruxelas, a Grécia terá de «se cingir ao essencial», já que «não há alternativa ao corte de despesa» e às medidas de austeridade.
«O que poderá ser feito, quanto muito, será prolongar os prazos de ajuda, dar mais tempo ao país».
Nesta fase de indefinição governamental - «mais complicada do que se pensava inicialmente» - muito do que se vive passa por «manobras políticas dos partidos».
No domingo, as eleições na Grécia derrotaram o governo de coligação, constituído pelo Pasok (socialista) e a Nova Democracia (direita).
Hoje prosseguem os esforços do líder da coligação da esquerda radical grega Syriza, o segundo partido mais votado nas legislativas de domingo, para tentar formar um governo de coligação.
Para o analista do European Policy Center, há uma «ligação» entre as eleições gregas e as francesas, que no domingo sagraram François Hollande como novo presidente do país: «Hollande venceu em parte porque foi dizendo que esta receita aplicada no caso grego não está a resultar».
«Temos de pensar também no outro lado da equação e Berlim tem de aceitar isso. Foi o que Hollande disse na campanha eleitoral», lembrou Janis Emmanouilidis, para quem as relações entre França e a Alemanha e o resto da Europa «já são diferentes agora», mesmo antes da tomada de posse do novo presidente.
No entanto, adverte o analista político, não deverá existir um corte intenso nas relações com a Alemanha e a própria chanceler Merkel, «até por necessidade e interesse político pessoal» em futuras eleições nacionais.