O secretário de Estado das Infraestruturas, Transportes e Comunicações, Sérgio Monteiro, manifestou esta terça-feira «uma profunda desconfiança» relativamente às análises de custo/benefício feitas aos grandes investimentos.
Ao intervir em Viseu numa sessão do ciclo de debates públicos “Ter Estado”, sobre o tema “Fundos estruturais e investimentos: onde devemos investir”, Sérgio Monteiro considerou que os benefícios referidos nessas análises «são facilmente manipuláveis».

Sérgio Monteiro falava depois de o economista português Miguel Cadilhe ter defendido que «qualquer grande despesa pública de investimento ou aparentada (por exemplo, um evento, como a Expo 98)», seja na área social, da administração da justiça, da educação, das infraestruturas ou militar, «deve ser chamada a uma análise de custo/benefícios».«Estou convencido de que muitas grandes despesas públicas que foram realizadas ao longo dos anos não teriam passado numa análise de custo/benefícios independente e competente», considerou Miguel Cadilhe.

Sérgio Monteiro respondeu, dizendo não fazer «tanta fé assim nas análises de custo/benefício».«Os benefícios económicos, sociais, de tempo, são facilmente manipuláveis. E não é pelas entidades independentes ou dependentes de uma certa tutela fazerem (a análise)», referiu.Segundo o secretário de Estado, «quase todos os estudos de análise de custo/benefício em Portugal foram feitos por consultores independentes, que não dependiam de nenhuma tutela política para apresentar os seus resultados».

«No entanto, o seu grau de eficácia, de prever o que aconteceu no futuro foi péssimo. Tudo o que estava previsto de benefícios raramente se concretizou e o que estava previsto do ponto de vista de custos mais do que se concretizou, ou seja, o custo foi maior do que estava previsto», explicou.

Na opinião de Miguel Cadilhe, «os políticos não gostam de modo nenhum de análises custo/benefícios independentes e competentes».

«Mandar fazer análises custo/benefício de uma autoestrada, de um aeroporto, de um porto ou de um terminal ao Laboratório Nacional de Engenharia Civil não é independência, por muito competentes que eles sejam», exemplificou.

O economista ironizou que «a melhor forma para um político decidir despesa pública é não se sujeitar a análises custos/benefícios independentes e competentes».

«Alguma vez na vida teríamos feito aquela enormidade de despesa pública em submarinos se tivesse havido na altura uma análise custo/benefícios independente e competente?», questionou.

Sérgio Monteiro esclareceu que quando manifestou desconfiança relativamente às análises de custo/benefício foi no sentido de que estas devem ser escrutinadas.

«É para olhar para os pressupostos e verificar a sua aderência à realidade, tanto no passado recente, como na prospeção do futuro», justificou.

Neste âmbito, defendeu que «os pressupostos, nomeadamente os macroeconómicos, que assistem às análises para validar ou não determinado investimento deviam ser mais ou menos consensuais e utilizar os principais indicadores».

«Deveríamos ter um conjunto de informação que fosse seguida e que não pudéssemos dar grande variação e reduzíamos o grau de discricionariedade das análises custo/benefício. Acho que esse é o problema, não é a sua existência», acrescentou.