Dezenas de clientes do Banco Espírito Santo e Novo Banco reuniram-se este sábado, em Matosinhos, para debater a criação de uma associação de lesados pela instituição financeira e pedir reuniões quer à administração quer às autoridades.

Em declarações aos jornalistas antes do início da reunião, que juntou dezenas de pessoas do Norte e Centro do país num hotel em Matosinhos, no distrito do Porto, Ricardo Ângelo, que falou em representação do grupo, declarou que as pessoas passaram «de clientes bestiais para clientes de bestas».

«Fomos enganados por um grupo importantíssimo deste país. Fomos enganados por gestores em que confiávamos há 20 e tal anos, alguns há mais, e esses gestores impingiram-nos um produto que teoricamente era um produto sem risco, um produto onde as pessoas investiram as poucas poupanças que tinham», declarou o representante, referindo-se ao papel comercial subscrito aos balcões do banco.

Num comunicado distribuído aos jornalistas pode ler-se que a associação a constituir pretende representar os interesses dos «enganados do BES e desprezados do Novo Banco» e que «o primeiro passo será o pedido de reunião com a administração do Novo Banco, com o Banco de Portugal, com a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários e com os partidos políticos».

«Queremos ainda sublinhar que a associação exigirá a apresentação de uma solução antes da venda do Novo Banco, sem prejuízo de serem tomadas as medidas indispensáveis à salvaguarda dos interesses dos seus associados», acrescenta o texto.

Ricardo Ângelo, em resposta à pergunta sobre a possibilidade de avançarem para tribunal, disse que, neste momento, admitem tudo, mas não têm «interesse nenhum nisso», pretendendo, em primeiro lugar, ser recebidos pelas várias entidades.

Antes da reunião, várias pessoas expuseram os seus casos, como Hugo Martinho, de Lamego, que afirmou à Lusa, sublinhando a confiança que depositava na gestão de conta: «Nunca soube o que era papel comercial, sempre me foi vendido como um depósito a prazo com garantia de capital e dos juros».

«Quando esta situação toda começou foi-me dito pelo gestor [de conta] que havia uma garantia da Tranquilidade, que estavam cabimentados 700 milhões de euros para cobrir o prejuízo do papel comercial», afirmou um dos participantes na reunião.

Vários dos presentes no encontro de hoje disseram ter recebido garantias dos seus gestores de conta de que os problemas seriam resolvidos até ao final do ano, algo que não aconteceu.

Em setembro, a Associação de Defesa dos Clientes Bancários revelou que um parecer jurídico solicitado a um escritório de advogados aponta para «ilegalidades» na comercialização de produtos financeiros do Grupo Espírito Santo.

Um mês antes, foi anunciado que o Novo Banco iria apresentar propostas de compra de papel comercial de empresas do Grupo Espírito Santo aos clientes que subscreveram esses títulos aos balcões do BES.

Em dezembro, o ex-administrador do BES José Manuel Espírito Santo Silva começou a sua intervenção na comissão de inquérito à gestão do banco dizendo que os clientes merecem um "pedido de desculpas institucional" pelo sucedido na entidade.

A 03 de agosto passado, o Banco de Portugal tomou o controlo do BES, após a apresentação de prejuízos semestrais de 3,6 mil milhões de euros, e anunciou a separação da instituição em duas entidades: o chamado banco mau (um veículo que mantém o nome BES e que concentra os ativos e passivos tóxicos do BES, assim como os acionistas) e o banco de transição que foi designado Novo Banco.