O antigo administrador financeiro do Banco Espírito Santo, António Souto, usou esta terça-feira uma imagem para caracterizar o colapso do banco, na comissão de inquérito ao BES/GES, no Parlamento:

«Caiu uma tromba de água sobre um guarda-chuva deste tamanho [pequeno]. Cair um grupo inteiro, de uma forma tão acentuada... Era difícil aguentar o guarda-chuva»


Ora, o guarda-chuva, é fácil perceber, era o BES. Era suposto que o ring fencing - as exigências do Banco de Portugal para o banco acabar com a exposição ao Grupo Espírito Santo -  ajudasse «a suster a inundação». «Estávamos à beira de conseguir e não conseguimos no último minuto, quando apareceram essas surpresas todas», afirmou aos deputados.

António Souto referia-se à ocultação de dívida da Espírto Santo Internacional (cerca de 1,3 mil milhões de euros), a holding-mãe do GES, que acabou por precipitar a derrocada do grupo e levar por arrasto o BES, que ficava mais em baixo, na hierarquia. 

Para se ter uma ideia da composição do grupo, a ESI detinha a 100% a RioForte que, por sua vez, estava na posse de 49,4% da Espírito Santo Financial Group (ESFG). Esta holding tinha 25,1% do capital social do BES. O GES era, pois, a tromba de água. E o BES o pequeno guarda-chuva.

Ora, é precisamente a esta holding que o ex-administrador mais dispara críticas. Assegurou, no Parlamento, que a  a recompra de obrigações pelo BES, com prejuízos, foi feita pela ESFG «à margem» dos órgãos competentes do banco. Ricardo Salgado era o presidente não executivo.

Segundo a ex-diretora do BES, Isabel Almeida, que esteve presente na comissão esta manhã, Salgado  recusou com o ex-CFO Morais Pires explicar o assunto à nova administração, na altura liderada por Vítor Bento. 

António Souto não usou meias palavras para responsabilizar Salgado pelo descalabro, dizendo que ele  «aprovou uma série de operações ilegitimamente», entre as chamadas margin calls, às cartas de conforto à Venezuela. Outras surpresas que contribuíram para aquilo que já foi classificado nesta comissão de inquérito, por alguns intervenientes, como «a tempestade perfeita». O grupo afundou mesmo e o BES desapareceu em alto mar. À tona, ficou o Novo Banco, depois da resolução decretada pelo Banco de Portugal.