O preço dos combustíveis continua a subir, e isso tem vindo a pesar mais nas contas mensais das famílias portuguesas. A boa notícia é que o aumento não vai ser muito superior ao que já é, pelo menos contando com os dados que temos hoje em cima da mesa. O espaço da Economia24 convidou, o especialista em mercados financeiros, Marco Silva, que esteve no "Diário da Manhã" da TVI, para nos ajudar a descodificar este "papão".

Se gasto 100 euros por mês é pouco provável que venha a gastas mais 30 ou 50 euros nos próximo meses?

Não é expetável que o aumento possa ser tão elevado, só mesmo se o custo o petróleo aumentasse cerca de 40 a 50%. 

Está em cerca de 65 dólares por barril, passaria para mais de 100 dólares?

Sim. Está em máximos de 2015, se fosse para os 90 a 100 dólares, eventualmente poderíamos ter esse aumento, mas esta é apenas uma parte da componente, o custo da matéria-prima. Mas o preço do petróleo não deve subir muito mais. É expetável que aconteça o inverso. O petróleo está a sair de cena como grande arma negocial, porque as renováveis estão a ganhar peso. Por isso, a tendência é que o petróleo venha a diminuir de peso e valor nos próximos anos.

Face ao que pagávamos há um ano estamos a pagar muito mais?

Sim porque o petróleo subir de valor em termos médios, mas também porque existiu uma alteração na cotação do euro e do dólar. Se o dólar aumenta de preço nós, com euros, temos que pagar mais euros para obter o mesmo petróleo. Mas na componente geral o que pesa mais não tem nada a ver com o preço de custo.

Então tem a ver com o quê?

Pagamos o dobro de impostos, tanto na gasolina como no gasóleo, do que custa a matéria-prima. O peso dos impostos é muito elevado. É um dos maiores da Europa. No caso do gasóleo temos mesmo o sexto mais caro da Europa. Espanha é o vigésimo segundo. Existe uma grande diferença em termos de competitividade no caso, por exemplo, do gasóleo. Em termos de impostos puros, na gasolina são cerca de 69% em relação ao preço de referência. E se tivermos em conta que os revendedores têm uma margem, por exemplo, no gasóleo entre os 8 e os 18 cêntimos por litro, e na gasolina entre os 11 e 22 cêntimos por litro…

Percebemos que quem ganha mais é o Estado?

Sem dúvida alguma. Só em Imposto de Valor Acrescentado (IVA) do Imposto Sobre Produtos Petrolíferos (ISP) o Estado arrecadou, até final do terceiro trimestre, mil milhões.

Porque é que por vezes ouvimos que o petróleo desceu de preço mas os consumidores pagam mais pelos combustíveis?

Há um desfasamento temporal, mas também o preço da matéria-prima é apenas um dos pontos. É como dizer que a farinha é o mais importante para fazer pão, mas o problema são os impostos que o pão leva depois em cima. Mesmo que a farinha desça de preço não é por isso que o pão vai descer de preço. Os impostos estão lá e não mudam.

Então se o preço da matéria-prima descer muito…

O IVA que o Estado arrecada vai ser menor e, neste caso, o Governo aumentou o ISP para compensar. Na realidade, o Estado quase que ganha sempre o mesmo em relação a impostos, no copto geral.

Quando o Governo disse que mexeria no mercado caso se verificasse um aumento significativo de preço para o consumidor, na prática não cumpriu?

Não. Até porque isso foi feito de uma forma não muito clara, porque sabiam que o petróleo estava a cair, que os preços iam cair, e isso não permitiu ao Estado reduzir o custo. Aumentou os impostos para compensar a perda de receita.

O tema os impostos vai mais longe que os combustíveis?

Sim. Também na energia. Não podemos dizer que vamos ter carros elétricos para ser mais barato, porque só cerca de 33% é que é realmente a energia paga, as receitas das comercializadoras. Tudo o resto, é para pagar as redes ou outros impostos e taxas que subsidiam as eólicas, e todas as outras renováveis. Bonitas de se ter, mas que se pagam bem caro.