O presidente não executivo da CGD disse hoje, em Vale de Cambra, que Portugal tem «mais empresas más» do que a generalidade dos países desenvolvidos, o que implica dificuldades no acesso ao crédito bancário que têm que ser resolvidas.

Na conferência "Embrace Your Future", que também contou com a participação de representantes do BPI, do BIC e da Associação Portuguesa de Bancos (APB), o responsável da Caixa Geral de Depósitos (CGD), Álvaro Nascimento, declarou que «a qualidade de gestão das empresas portuguesas é baixa» em relação a muitos países europeus e que «isso poderá explicar as elevadas taxas de juro» que lhes são aplicadas pela banca.

Realçando que essa opinião era «pessoal» e não necessariamente coincidente com a visão do banco que representa, o chairman da CGD acrescentou: «Temos muito mais empresas más do que a generalidade dos países desenvolvidos».

Álvaro Nascimento argumenta que as multinacionais instaladas em Portugal «são muito melhores do que as empresas domésticas» e, nesse contexto, específica que «as próprias multinacionais de origem portuguesa são melhores do que as empresas voltadas só para o mercado interno».

«Isto significa que alguma coisa se passa na nossa economia que precisa de ser resolvida, porque a qualidade da gestão é um aspeto determinante da atribuição do crédito», realçou.

Luís Mira Amaral, presidente executivo do BIC em Portugal, por seu lado, afirmou que o problema que atualmente se coloca à banca portuguesa não é o da falta de liquidez, mas o da existência de «poucas empresas que possam ser financiadas».

«Para as boas empresas portuguesas já não há dificuldades de liquidez», explicou o antigo ministro da Indústria. «O problema que temos neste momento na banca portuguesa é o do risco de crédito e uma esmagadora maioria das empresas não tem condições de lhe aceder», defendeu.

Fernando Ulrich, presidente do BPI, também partilha da opinião de que «o sistema financeiro português tem capacidade e está recetivo para financiar riscos», mas observou que essa disponibilidade só se aplica às PME «desde que a sua qualidade da gestão e do risco seja igual à das grandes empresas».

Se esses requisitos do risco bem calculado se cumprirem, há até uma vantagem: «Há muito mais oferta para financiar as pequenas empresas do que as grandes. Não voltamos é ao passado na gestão de risco, não pode haver nenhuma ilusão a esse respeito».

Para Fernando Faria de Oliveira, que preside à Associação Portuguesa de Bancos, essa postura de aprendizagem também é decisiva, sobretudo tendo em conta que a saída limpa do programa de ajustamento financeiro «confere mais autonomia a Portugal, mas mantém o país perante compromissos e desafios que é preciso saber vencer».

«Temos muita propensão para falar sobre as consequências e não atuar sobre as causas, algumas delas ainda não devidamente atacadas», esclarece o representante da banca.

«Precisamos de uma visão estratégica para o desenvolvimento nacional, com um rumo lógico», referiu.

Na opinião de Faria de Oliveira, isso passa, entre outras medidas, por três prioridades: «Temos que proceder à reforma do Estado e ao saneamento das finanças públicas, e lidar com um problema verdadeiramente alarmante que é o das perspetivas demográficas para o nosso país».