O diretor executivo do Centro de Política Europeia defende que o programa de assistência era absolutamente necessário para Portugal, embora considere que o país sofreu com a inexperiência das instituições europeias e que este modelo tem ser reformulado profundamente.

«O caso português foi um caso de sucesso no sentido de conseguir regressar aos mercados, agora, o preço que foi pago em termos sociais foi muito pesado e continuará a ser.

Mas embora nem tudo tenha sido bem feito, e certamente a austeridade foi muito severa, Portugal e os restantes países sob programa tinham de fazer um reajustamento que seria sempre doloroso, qualquer que fosse o regime, dentro ou fora do Euro», afirma à Lusa Fabian Zuleeg, diretor do Centro de Política Europeia (EPC, sigla em inglês), um dos maiores think-tanks sediados em Bruxelas.

Este especialista em política económica europeia diz que «todas as populações afetadas por programas destes farão obviamente uma reavaliação da União Europeia, porque a sua posição é muito diferente, passou de um distribuidor de fundos relativamente distante para parte da troika, exigindo reformas em troca de uma assistência controlada».

«No longo prazo parece-me que a pergunta essencial a responder é se as populações verão esta intervenção como um mal necessário, provocado por erros políticos a nível doméstico, ou uma imposição do norte da Europa motivada simplesmente por uma agenda que deu prioridade à austeridade», responde Zuleeg.

Este alemão considera que Portugal beneficiou de ser visto como «um bom aluno» perante os parceiros internacionais, mas que os programas de assistência macroeconómica terão de ser reformulados para o futuro e de ter «bastante mais flexibilidade», permitindo aos países «continuar a fazer investimento público e social».

«O ponto-chave deve ser o apoio ao investimento público e privado, especialmente nos países sob assistência, de forma a impulsionar o crescimento e o emprego. Isto exige mais apoio político das economias mais fortes e no longo prazo é do seu próprio interesse que isto aconteça, económica e politicamente», sustenta.

O diretor do Centro de Política Europeia considera ainda que ao longo destes três anos de resgate «os erros eram inevitáveis»: «Temos de reconhecer que ninguém sabia como fazer isto, nem os países, nem a troika».

Sobre uma eventual maior margem de manobra do Governo português após a conclusão oficial do programa de assistência, Zuleeg responde que em termos de política fiscal a mudança será sempre reduzida enquanto se mantiver uma «crise nas finanças públicas».

«Penso que [o Governo] poderá decidir mais facilmente quais são as suas prioridades», diz.

Já questionado sobre se Portugal poderá cumprir as regras

do tratado orçamental, que obriga a um défice público de 0,5% do PIB, o investigador advoga que «o foco não deve estar nas metas, mas no crescimento».

«Com crescimento sustentado e uma inflação moderada, as metas do défice e da dívida podem ser alcançadas. Sem crescimento, é impossível», conclui.