O primeiro-ministro, António Costa, afirmou-se confiante que o défice orçamental ficará este ano “abaixo dos 2,5%”, tendo por base a “enorme melhoria” registada no primeiro semestre e os “vários meses” ainda pela frente.

“Temos dados permanentes da execução orçamental e o que demonstram é que estão em linha com aquilo que tínhamos projetado. Portanto estamos confiantes que [o défice] não só ficará claramente abaixo dos 3%, como ficaremos abaixo dos 2,5% que nos fixou a União Europeia”, afirmou Costa, à margem de uma visita à comitiva de empresas portuguesas que, de sábado a terça-feira, participam na feira de calçado MICAM em Milão, Itália.

Na nota da execução orçamental até julho, a que a agência Lusa teve acesso na sexta-feira, a Unidade Técnica de Apoio Orçamental (UTAO) estima que, no primeiro semestre deste ano, o défice orçamental se tenha situado nos 2,7% do PIB [Produto Interno Bruto], em contas nacionais, uma "melhoria face ao período homólogo", mas alerta para "pressões orçamentais" no segundo trimestre.

A UTAO estima que o défice das administrações públicas em contabilidade nacional (a que conta para Bruxelas) "se tenha situado entre 2,2% e 3,2%" do PIB até junho.

Confirmando-se a projeção agora avançada pelos técnicos independentes que apoiam o parlamento, entre janeiro e junho deste ano "o défice deverá ter registado uma redução de 1,9 pontos percentuais do PIB face a idêntico período do ano anterior", depois de ter diminuído 2,3 pontos percentuais em termos homólogos nos primeiros três meses do ano.

Segundo António Costa, a nota da UTAO reconhece “que houve uma enorme melhoria” entre o primeiro semestre de 2015 e os primeiros seis meses deste ano, apontando “aquilo que é óbvio”: “Que há um segundo semestre ainda por percorrer e temos vários meses pela frente”.

“A recomendação da UTAO é a que qualquer médico dará a todos nós: ‘Não abuse dos doces, senão isso fará mal à sua saúde’. A UTAO diz que correu bem o primeiro semestre e que é preciso que corra bem o segundo semestre para chegarmos ao final do ano no ponto em que queremos. E vamos chegar”, sustentou, baseando esta convicção numa “questão de confiança e de conforto”.

 

“Se o crescimento económico fosse possível melhorando a palmilha do sapato"

O primeiro-ministro bem gostaria que fazer crescer a economia fosse tão fácil como já é hoje aumentar a altura dos homens, com sapatos compensados, mas como alternativa aponta a aposta na inovação de que o calçado português é exemplo.

“Se o crescimento económico fosse possível melhorando a palmilha do sapato, como vamos todos poder crescer quatro centímetros comprando sapatos com a palmilha adequada, seria fantástico. Infelizmente não é assim. Para que o crescimento económico exista é necessário ter uma visão não de curto, mas de longo prazo, e fazer o trabalho que estes industriais de calçado fizeram”, afirmou António Costa.

Momentos antes, o primeiro-ministro tinha ficado a saber, no expositor de Luís Onofre, que a primeira linha de calçado masculino do empresário e criador de sapatos de São João da Madeira permitirá aos homens “ficarem quase quatro centímetros mais altos”, com recurso a uma subtil compensação da sola, impercetível por fora.

“Isso é um sonho”, admitiu António Costa numa referência aos sapatos que, depois, em declarações aos jornalistas, acabou por admitir que gostaria que fosse extensível à política económica.

Apontando a indústria portuguesa do calçado como “um setor exemplar do esforço que a indústria portuguesa fez de transformação, modernização e inovação”, Costa justificou aquela que foi a primeira deslocação de um primeiro-ministro português à maior feira de calçado do mundo com o “orgulho” que a atual importância do calçado nacional é “para todos os portugueses”.

“O trabalho que foi feito ao longo destes anos pela APICCAPS [Associação Portuguesa dos Industriais do Calçado, Componentes, Artigos de Pele e Seus Sucedâneos] é o trabalho que tem que ser feito em cada um dos setores industriais, para que nos modernizemos com base na inovação, na qualidade, no aumento do valor acrescentado do produto e possamos ser competitivos criando, simultaneamente, prosperidade partilhada para todos em Portugal”, sustentou.

Para tal, salientou, impõe-se “uma estratégia integrada que começa no pré-escolar e acaba na formação universitária, na transferência deste conhecimento para a economia e na incorporação desse conhecimento em cada um dos produtos”.

Alguns expositores mais à frente, durante a visita que, em passo necessariamente acelerado, fez à maior comitiva portuguesa de sempre na MICAM, o primeiro-ministro foi surpreendido por um outro exemplo de inovação no calçado nacional, ao apreciar um sapato da marca Tony Miranda fabricado com pele de robalo.

“Não sabia que a pele de peixe também dava [para fazer sapatos]”, confessou António Costa, para logo a seguir ser informado que um outro produtor português de calçado já o fazia, mas com pele de bacalhau, o que o levou a considerar estar em causa toda “uma nova dimensão da economia do mar”.

Adicionalmente, gracejou, “afinal já não há só 1001 maneiras de cozinhar o bacalhau”.

Numa altura em que o país “precisa de exportar”, António Costa reiterou querer estar “ao lado” do setor do calçado, que vende mais de 95% para o estrangeiro, mas sublinhou que “para exportar mais não tem que se asfixiar o rendimento dos portugueses e a procura interna”.

“Esta ideia peregrina que episodicamente voltou de que podíamos voltar a ser competitivos com base no empobrecimento coletivo é uma estratégia absolutamente condenada ao fracasso. Não podemos apostar no empobrecimento, temos que apostar na qualificação, só assim podemos ir melhorando progressivamente os nossos rendimentos”, afirmou, reafirmando a estratégia de reposição do poder de compra dos portugueses.

Antes de se juntar à comitiva nacional de empresários de calçado para um almoço organizado pela APICCAPS, Costa respondeu ainda à recomendação feita na sexta-feira pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, durante a Feira do Livro no Porto, para que quer o primeiro-ministro, quer o líder da oposição, Pedro Passos Coelho, lessem a tetralogia de Elena Ferrante “A Amiga Genial”.

“A minha mulher já me tinha dado o mesmo conselho. Está a acabar de ler o primeiro volume e, a seguir, irei tentar começar, porque gosto sempre dos conselhos do senhor Presidente da República”, disse.