O - agora pode dizer-se oficialmente - novo presidente do Eurogrupo é português, vindo de um Governo socialista com apoio dos partidos mais à esquerda. Mário Centeno vai desempenhar funções numa Europa de centro-direita cujo paradigma político não mudou e que está muito associada à austeridade que este ministro das Finanças diz querer combater.

Depois de tocar o sino, como ato simbólico na passagem de testemunho da liderança, Mário Centeno mostrou-se motivado e garante estar preparado para os desafios. Disse ao que vai e quais as suas prioridades no mandato que começa oficialmente no domingo, 14 de janeiro.

Em conferência de imprensa com jornalistas portugueses, o novo líder do Eurogrupo foi questionado se perante governos defensores da austeridade, vai encetar um esforço maior na construção de pontes de consenso, defendida por Emmanuel Macron.

A posição do Presidente francês é muito importe numa posição de liderança da Europa. Temos de alavancar nessa posição para promover processo de reformas a nível europeu que permita tornar a zona do euro robusta e resiliente a crises".

Não quis, por outro lado, fazer análises sobre o passado, mas destacou que reformas são uma coisa, austeridade é outra. 

A Europa enfrentou crise muito séria, atuou, reformas muito ambiciosas. O Governo português tem promovido essas reformas na área financeira, na área das qualificações. São reformas que têm de se manter. O que temos de garantier é que resultado dessas reformas profundas beneficie de uma estabilidade financeira e de uma integração financeira na área do euro que hoje ainda é incompleta e incipiente"

Há uma série de desafios que se colocam, como a discussão já em cima da mesa de um eventual fundo monetário europeu "que promova o crescimento e promova a estabilidade" e outros "marcos muito importantes" ainda por concluir, como a união bancária e de capitais e discutir. São prioridades para Mário Centeno no novo cargo que ocupa, e que continua a acumular com o de ministro das Finanças de Portugal.

"Precisamos de juntar as vontades nacionais (...) àquilo que é necessidade institucional de construir uma área mais forte. As questões orçamentais no centro desta discussão. Iniciámos já há bastante tempo discussão sobre regras orçamentais (...) e sobre a capacidade de serem entendidas pelos cidadãos", realçou.

Deixou uma promessa: "Devemos continuar discussão é vontade que tenho recebido de todos: saber se a UE deve ou não ter capacidade orçamental autónoma [o tal FMI europeu], um debate longo que estando em cima da mesa. Comprometo-me a tê-lo com todos: sempre com um objetivo, criar consensos e que sejam equilibrados".

Janela de oportunidade

Comentando o acordo finalmente alcançado na Alemanha para a formação de governo, entre o partido de Angela Merkel e os sociais-democratas, Mário Centeno disse que "é uma boa notícia". "O que é importante garantir para cada um dos países da área do euro permanece comprometido com o processo de construção europeia. Estou certo que esse será o caso da Alemanha, para a importância que tem neste processo".

A seguir, e a propósito, aproveitou para destacar duas dimensões importantes para que se possa "progredir na construção europeia", encarando-as como uma "anela de oportunidade":

  • uma das dimensões é política, "pelo início de ciclos políticos muito relevantes em vários países da Europa"
  • a segunda é económica, "pelas boas condições económicas que temos hoje na Europa"

Os ventos sopram favoravelmente, com um crescimento económico acima de 1,5% em todos os países, como destacou e melhorias "muito significativas transversalmente, em todos os países", bem como uma  "posição de poupança líquida e externa muito favorável". Mas também admite que há muito trabalho pela frente e que é preciso "trazer essas poupanças para o investimento".